É como se a canção, desde seu início imediato, propusesse uma viagem extrassensorial. Porém, muito longe da psicodelia, de uma atmosfera convidativamente onírica ou mesmo etérea, a composição consegue esse feito através de sonoridades de caráter acústico provenientes da veia percussiva. Desde mostrar proeminência na desenvoltura de um alicerce levemente sensual, mas com boa capacidade de elucidar uma noção de fluidez, Lønahorgi chama a atenção pela sua crueza serena e pelo seu dulçor-estridente de caráter hipnótico introduzido graças aos pulsos espaçados do piano. Por meio deles, é até possível detectar momentos em que a canção transpira requintes de um drama embrionário, mas já presente em meio à paisagem estético-estrutural. Com pouco mais de seis minutos de duração, Lønahorgi é uma música que mostra um instrumental tímido, mas que demonstra a vastidão de seus elementos, fazendo com que o ouvinte, mesmo em meio a uma postura intimista, identifique elementos como trompete, trombone e saxofone.

De início podem parecer um uníssono do zumbido de mosquitos rondando a atmosfera, mas o que acontece é que um grande time de instrumentos de sopro se forma e promove um som único que vai da leveza à estridência, mas com uma impressionante sutileza. Preocupada em não romper com a tranquilidade e a fragilidade da postura de seus próprios instrumentos, a canção nasce tal como o dia. De maneira gradativa, ela oferece ao ouvinte uma paisagem encantadoramente crepuscular que é marcada pela aparição de um Sol de luminosidade branda surgindo por detrás das colinas ao longe no horizonte. Aqui, até mesmo o clarinete, com seu dulçor grave característico, adquire certo quê de protagonismo em relação aos demais elementos da composição instrumental. Superando a marca dos oito minutos de duração, pode se dizer que Grøvona seja a obra mais autêntica e ousada do álbum. Afinal, seu contexto sensorial é tão profundo que o ouvinte, de fato, consegue sentir em seu palato o açúcar. Sentir, em sua pele, tanto a textura do veludo quando a brisa fresca vinda do além-mar. O que chama a atenção na presente canção, também, é o fato de ela empregar a guitarra, mas de forma um tanto censurada. Afinal, aqui o instrumento é ouvido de forma seca, como se fosse usado apenas para construir súbitos de uma textura ligeiramente mais áspera.

Em Tjørni acontece uma feliz surpresa. Desde seu início imediato, a canção permite que o ouvinte viva o êxtase do conforto em meio a um charme retro abundante e irresistível. Com  uma beleza cheia de pompa, mas ao mesmo tempo marcada por uma simplicidade nata, a canção apresenta o jazz em sua forma mais introspectiva e delicada. Não é à toa que, aqui, a bateria tem grande participação e, portanto, importância. Isso acontece porque o instrumento se mostra responsável por criar o andamento rítmico e assumir a função de uma espécie de guia temporal, delimitando o compasso que o restante dos instrumentos devem seguir. Como se mostra suave e lenta, todo o instrumental acompanha nesse mesmo viés, fazendo de Tjørni uma espécie de balada jazz cheio de aroma e maciez que, surpreendentemente, são imersas em requintes de uma brisa psicodélica súbita. Nesse ínterim, inclusive, a contribuição do teclado faz com que a estrutura rítmico-melódica alcance um feito sensorial inerente ao hipnotismo.

Taoe, por outro lado, se mostra o título de maior destreza, ousadia, liberdade e autoconfiança. Afinal, ela não se vê na ânsia de seguir padrões pre-estabelecidos pela comunidade musical internacional. Ela quer e, portanto, cria uma experiência sensorial própria, podendo soar dissonante ou não. Descompassada ou não. O fato é que, em meio à sua espontaneidade e independência no que tange a tarefa da experimentação, a faixa faz com que cada som seja uma espécie de ruído. Seja o saxofone, o trompete ou mesmo a flauta, cada elemento aparenta ter seu som, de certa forma, propositadamente prostituído na ânsia de criar uma atmosfera fora do conservadorismo. Independente de sua real intenção, o fato é que, dentre os seus pouco mais de sete minutos de duração, a faixa não consegue fugir de sua raiz jazz, que é mostrada com clareza em certo momento da narrativa rítmico-melódica em que o piano interage diretamente com o compasso sincopado da bateria.

O piano, aqui, curiosamente consegue causar requintes de uma certa tensão melancólica por meio de seus sonares cuidadosamente espaçados, o que induz certo quê de drama penetrando na atmosfera. Tal como se a própria batuta do maestro ou o encontro das baquetas na haste da caixa fossem, em si, um instrumento separado de sua totalidade conjuntural, a canção se destaca por explorar novas formas de crueza. O fato é que, através da identidade da união dos sons dos instrumentos de sopro, Kave pode ser entendida como uma obra feita nos moldes da trilha sonora de filmes de terror provenientes das décadas de 80 e 90.

Graosido é um álbum de natureza experimental. Ainda que seja inquestionável a sua paisagem jazz, o seu alicerce conjuntural total é moldado por um senso de liberdade e independência que o torna marcante por entre veias do experimentalismo. Espontâneo, cru, aventureiro e, pode se dizer, até de certa forma agradavelmente petulante em não seguir as normas de uma melodia padronizada, o álbum se destaca pela sintonia afiada conquistada pelos instrumentos.

Ofertados pela orquestra OJKOS, eles são capazes de ser percebidos mesmo de maneira individual quanto em conjunto, engrandecendo em demasia a experiência sônica do ouvinte. Não à toa que durante o período de audição, o espectador viaja do torpor à melancolia, passando pelo charme retro, pela sensualidade. Mas, também, ele se permite caminhar por um senso de empoderamento, independência, liberdade e ousadia, questões presentes no álbum como um todo, mas recebendo maior destaque em meio às suas cinco primeiras canções.

Para os amantes de jazz, Graosido é uma boa pedida. Para os amantes da música experimental, Graosido é uma boa pedida. Para os apreciadores de ousadia, Graosido é uma boa pedida. Da autenticidade ao puro classicismo, o álbum mostrou ter total controle de sua desenvoltura, o que mostra boa musicalidade, sensibilidade e espírito aventureiro por parte de Knut Kvifte Nesheim.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/48XEwop9iu4fep5yhUzlt8

Site Oficial: https://www.knutkviftenesheim.com

Bandcamp: https://knutkviftenesheim.bandcamp.com/album/graosido

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