É com uma sonoridade tilintante que a composição tem seu início declarado. Uma agudez açucaracada, inclusive, rege os primeiros movimentos da sonoridade em meio à sua identidade sintética marcante. De cadência levemente acelerada, a canção se mostra capaz de fornecer ao ouvinte, conforme evolui, aromas de uma melancolia curiosamente envolvente. Curiosamente, inclusive, diante da identidade sônica que a obra comunica, é até possível de se perceber a assumição de uma postura ao mesmo tempo introspectiva e reflexiva, mas não necessariamente dramática. Felizmente, porém, Mice In My Walls passa a ser agraciada por boas noções de movimento por meio de um beat que se mostra imerso na estrutura do trip hop. Sincopado e graciosamente fornecendo texturas mais crocantes ao contexto sônico, ele acompanha a desenvoltura da composição de forma a dar ainda mais consistência para que a inserção de uma breve camada lírica operística consiga alcançar o seu objetivo de oferecer boas inclinações harmônicas. Importante dizer que é a partir dese detalhe que a canção adquire para si uma inquestionável postura hipnótica e, inclusive, alucinante.
Surpreendentemente, a presente composição não coloca, de imediato, o ouvinte em contato com uma camada sonora sintética. Aqui, existe o desenvolvimento melódico efetuado de forma paulatina, suave e, também, charmosa. Construída pelo piano e seus contornos levemente eruditos, a canção dá destaque ao brilhantismo de sua performance, a qual caminha rapidamente por entre as escalas tonais. Do grave ao agudo, o instrumento consegue oferecer ao espectador boas noções de movimento, mesmo sem se apoiar na presença de um elemento propriamente percussivo. No entanto, a partir desse momento, não demora muito para que Murderer seja repleta de uma camada rítmica até mais sincopada que aquela apresentada na composição anterior. Ainda que seja pautada na mesma estrutura do trip hop, a canção se vê em meio a um andamento percussivo mais acelerado, o que confere uma contradição interessante entre a calmaria classicista do piano e a modernidade eletrônica transpirada pelo beat. Interessante e necessário pontuar, também, que existe um instante em que o sintetizador ajuda a dar uma pausa no intenso frenesi fomentado pela batida rítmica. Com sua textura sensorialmente entorpecente, é como se o instrumento propusesse um momento de respiro até que a composição se equalizasse, por completo, em um andamento mais delicado.
Um sonar agudo e levemente bojudo invade o contexto sônico embriagado diante de uma proposta sônica levemente ondulante. Estruturada a partir de uma crescente e decrescente tonal, a canção parece brincar com a percepção dessa breve melodia bojudo-sintética que tenta se sobrepor ao ritmo trip hop efetuado pelo beat. Ganhando, surpreendentemente, contornos de uma agudez ácida vinda da representação sônica do hammond, a obra acaba sendo agraciada por um audacioso rompante harmônico que domina, sem cerimônia, todo o seu contexto sônico. Marcando por completo a sua paisagem, esse som consegue dar ainda mais movimento à obra, a qual, inclusive, se vê agraciada pela presença de outra camada sônica que se mostra na semelhante forma de uma sirene. Interessante pontuar que, em Dancing With The Dead, muito além de estar presente em meio a curiosos estímulos dançantes, o ouvinte se percebe diante de energias de natureza um tanto mórbidas e sombrias, o que coopera com a sensação de um clima noturno gélido.

Nos mesmos moldes de Murderer, Muddied Shoes é marcada pela presença massiva do piano em meio ao seu contexto harmônico-melódico. No entanto, diferente da primeira composição, aqui o instrumento confere a elaboração e difusão de uma atmosfera sensorial completamente enraizada na melancolia. Dando destaque, portanto, a uma postura mais introspectiva, é interessante perceber a suave transformação na forma como o beat se movimenta na camada rítmica. Sim, ele parece manter o mesmo frenesi e intensidade oferecidos nas canções anteriores, mas, aqui, é possível perceber a presença de um sentimentalismo mais palpável em seus sonares secos e de leve estridência. Como a canção mais longa de todo Chapter 1: The Beach Episode!, Muddied Shoes tem um momento de torpor ofertado por um sonar adocicadamente ácido que, inclusive, chega a beirar o onírico, de certa forma. É nesse instante que a canção assume breves contornos dramatúrgicos que se amplificam com a presença de sobreposições vocais masculinas que se colocam em cena de maneira ecoante. Com direito a momentos épicos e de enaltecimento de certo quê de agressividade, a faixa combina caos, dissonância, aspereza e torpor de uma maneira equilibrada e bem trabalhada.
É interessante notar que, depois de uma composição cheia de camadas e divisões sonoras, Alice Okada leve o ouvinte para um ambiente mais manso. Marcada por uma sensualidade sintética que abraça graciosos contornos da influência do reggae, a canção vem sincopada de modo a flertar, também, com o dub. A partir daí, o ambiente rítmico parece ser construído de maneira paulatina, mas sem esconder, em momento algum, o som do beat e a sua natureza trip hop. Não que ela seja construída embasada no uso do efeito fade in, mas, de fato, há um processo sônico gradativo e crescente em sua estrutura. Misturando caos e torpor, mas não necessariamente inclinado para com um âmbito propriamente épico, Watering Dirt tem, em si, instantes em que o sintetizador consegue despejar ligeiras brisas dramáticas em seu design sônico. Capaz de ser entorpecente, a canção, conforme caminha para o seu final, é respaldada por uma sonoridade embasada em um senso de contágio que mistura embriaguez, excitação e uma introspecção surpreendentemente onírica.
Se o onírico chega a reger o processo final da composição anterior, aqui essa identidade funciona como sua essência. Sua alma. Afinal, por meio de uma sonoridade aguda e ecoante, a composição consegue, facilmente, hipnotizar e manter o espectador em um contato constante com o etéreo. Ganhando a presença de uma textura sônica levemente áspera na base melódica, a canção acaba devolvendo, mesmo que minimamente, o controle da lucidez ao ouvinte. A partir daí, é como se ela funcionasse como o prenúncio da desenvoltura rítmica. Se posicionando em cena de forma a desenhar um andamento percussivo levemente amaciado, ela guarda consigo o sincopado e brisas bem estruturadas de uma fluidez orgânica. Na forma do segundo título mais longo em duração do EP, Dreams Of Oceans Beyond The Eyesight tem seus momentos de torpor incontestáveis, mas, também, instantes que surpreendem o ouvinte pelo fato de que o beat passa a soar como uma verdadeira bateria acústica, ganhando, assim, uma alma mais palpável.
Na verdade não. Ele não é um material indicado diretamente às pistas de dança que abraçam o coração das danceterias ao redor do mundo. Afinal, ainda que Chapter 1: The Beach Episode! tenha, em si, seus momentos de estímulos dançantes, eles são mínimos. O que torna o material especial, portanto, não é sua natureza dançante, mas, sim, a forma consciente, madura e esperta com que combina diversas sonoridades de natureza sintética com um beat enraizado na cenografia do trip hop.
Caminhando de maneira versátil entre o torpor, a melancolia, a intensidade, a sensualidade e o frenesi, o EP é marcado, inclusive, por momentos em que o ouvinte se vê diante de estímulos sensoriais adocicados, mas, também, amorfinantes e oníricos. Tudo estritamente combinado com as texturas constantemente crocantes expressas pelo beat, inclusive nos momentos em que o piano ganhou protagonismo absoluto. Com o instrumento, o extended play ainda se aventurou por momentos de harmonia brevemente erudita com delicadezas capazes de ser contagiantes e aconchegantes.
Nesse sentido, até mesmo as inserções vocais, que muitas vezes soavam onomatopaicos ou ondulantes, cooperaram para que houvesse a elaboração de uma temática brevemente operística, o que contribuiu para o enaltecimento de um lado propriamente mais artístico do EP, que contou, ainda, com diversos momentos de atmosfera sônica ambiente. Tudo isso faz com que Chapter 1: The Beach Episode! represente um incontestável divisor de águas na trajetória musical de Alice Okada.
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Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/2wQHBoVnv0Xa8SYIhTKfew
