É de uma gentileza difícil de descrever com exatidão. O violão, com sua delicadeza de aparência levemente sensual, convida o ouvinte, de imediato, para um universo regido por uma energia repleta de suavidade e tranquilidade. Não necessariamente introspectiva, mas minimalista em sua estrutura instrumental, a faixa se desenvolve inicialmente perante um formato linear em que o escopo lírico vem como aquele elemento primordial para o oferecimento de noções de movimento ao ouvinte. Narrada por uma voz equilibrada tanto em dulçor, quanto em veludo e agudez, a faixa se desenvolve ao ponto de fazer com que seu frescor envolva o espectador de uma forma quase entorpecente. Delicada em sua máxima essência Three Or Four, na companhia de YALI, exorta um aroma ao mesmo tempo floral e romântico enquanto mergulha em um refrão levemente pulsante em que conta a história de um relacionamento aprendendo a funcionar de maneira recíproca e agradável para os dois lados.
É verdade que, apenas em razão da sonoridade adotada pelo piano, o ouvinte consegue se deparar com um ambiente noturno, mas não vibrante. Um ecossistema em que o escuro da noite não tem estrelas ou sequer um sinal de vivacidade. Junto com o sintetizador, o instrumento acaba dando, ao ambiente, um caráter pegajosamente melancólico. Com o auxílio da interpretação lírica assumida por Tay Lerner e seu timbre grave de nuances nasais, o sentimentalismo atinge outro patamar. Favorecendo o enaltecimento de um ecossistema introspectivo, mas sem qualquer menção de reflexão, a faixa explora curiosos sensos de decepção extravasados em cada nova palavra pronunciada pelo vocalista em meio ao seu tom lamentador. Atingindo silhuetas curiosamente sensuais a partir da interação com uma conjuntura de beats pontuais e minimalistas, Take Me Home se apresenta como uma obra que apresenta um personagem lírico percebendo a necessidade de, primeiro, aprender a se amar e a se valorizar, para, posteriormente, poder seguir seus sonhos.
Ela é delicada e com um toque de veludo aconchegante. Ainda assim, invariavelmente a presente canção continua a espalhar as brisas melancólicas apresentadas ao ouvinte durante a execução da faixa anterior. Agraciada por um espectro curiosamente sensual no que tange a noção de maciez, a canção é capaz de oferecer um senso de conforto quase terno ao espectador. Com protagonismo do violão na criação dessa sensorialidade, a canção também conta com um andamento rítmico lexicalmente frágil e uma sonoridade sintética cuidadosamente esvoaçante introduzida pelo sintetizador. Mesmo diante das pinceladas agudas da guitarra, a canção não consegue desprender o espectador de um escopo sensorial entristecido que, cada vez mais, se mostra irreversível. Amadurecendo a sua roupagem pop assim que entra no refrão, Hit The Ground, na companhia de Nitzan, traz um personagem que, ao idealizar excessivamente uma experiência, teme pelo insucesso da mesma e pelos consequentes constrangimento e decepção por não conseguir fazê-la dar certo. Aqui, a insegurança e o medo falam mais alto que o desejo de viver momentos agradáveis.
O violão, através de sua sequência de movimentos levemente amaciada, consegue envolver o ouvinte em meio a nuances de frescor que induzem à percepção atmosférica bucólica. Tornando, portanto, a paisagem sônica encantadora e atraente desde os momentos iniciais do desenvolvimento melódico, o instrumento acompanha uma linha lírica que, pela forma como é vivida, funde, na receita sonora, boas doses de um pop contagiante. Muito em razão do timbre sereno e aveludado de שירה וייסלר, a faixa acaba sendo agraciada por uma sensorialidade inerente à delicadeza e à ternura. Com a presença do singelo toque tilintante do pandeiro, inclusive, a canção tem esse detalhe amplificado, conforme explora ainda mais a sua textura macia. Não que ela seja necessariamente melancólica, mas o curso que I Wish I Could Fly toma leva o ouvinte para a percepção de que existe, nela, uma narrativa que, apesar de esteticamente branda, tem, em si, a aparência do desespero e a atitude de um pedido de socorro travestido de controle. Isso porque a personagem da obra se vê em meio a conflitos internos difíceis de serem resolvidos. Enquanto o conforto se vê associado a um princípio de depressão, seus instintos pedem fuga e, as pessoas que o cercam, pedem calma e controle. Eis, aqui, a descrição perfeita da vulnerabilidade humana em relação aos impulsos da mente.

A introspecção e a melancolia são aspectos que, novamente, travam uma sintonia inquebrantável diante do cenário em construção. Delicada em sua máxima essência, a canção nasce explorando aspectos suspirantes e, de maneira inédita, uma dramaticidade pungente. Na união minimalista calcada apenas entre a voz agridoce do vocalista e o violão, Breathe vai destacando a sua natureza monocromática de maneira a comunicar tanto a ausência de vivacidade quanto, consequentemente, a ausência de motivação. Quando a guitarra elétrica entra em cena, não apenas o drama atinge seu ponto máximo, mas a canção acaba sendo capturada por um estigma dilacerante e áspero e lancinante que faz com que o ouvinte perca qualquer noção de lucidez em prol da incandescente dor sentida pelo personagem lírico. Breathe, na companhia de Ophir BM, é uma canção que, simplesmente, evidencia um indivíduo em busca de pertencimento e ansiando por uma capacidade honesta de superar o passado e enxergar o futuro sob uma ótica leve e, até mesmo, esperançosa.
A beleza nem sempre chega com ajuda de brilhantismo, de sensos de vivacidade. Do vibrante. Do incandescente. Inclusive, às vezes o sorriso, ainda que passe a ideia de alegria, pode ser apenas um disfarce para o que há no interior do indivíduo. A verdade que tanto se deseja esconder. E em Still Colorful, a beleza está no monocromatismo que pinta as silhuetas da tristeza, da dor e do sofrimento.
Ainda que a leveza se apresente, o visceral, o intenso e o lancinante sempre conseguem roubar a lucidez e deixar o indivíduo à mercê de seus próprios ímpetos por vezes autodestrutivos. Esses detalhes são introduzidos no disco de maneira sempre autêntica e inédita graças à coleção de convidados especiais recrutados por Wain para dar vida a esse álbum cheio de sentimentalismo. De YALI a ORIAN, cada cantor dá o seu toque às paisagens sônicas de suas respectivas canções, as tornando obras únicas e cheias de uma sinceridade pungente e surpreendente.
Mesmo que as cinco primeiras obras do EP tenham maior destaque por evidenciarem os apontamentos descritos anteriormente de uma forma mais nítida, Still Colorful é um produto que, em sua totalidade, marca e transforma a maneira com que o ouvinte enxerga a vida. Afinal, em última instância, a mensagem do material é a de que, apesar de existirem momentos difíceis, a vida sempre continua colorida.
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