Uma das premissas de Cam Ezra, eu seu mais novo disco, é trazer letras focadas na incerteza e que fazem refletir. O artista não está aqui para apontar dedos ou entregar verdades absolutas e só isso em si já é muito mais artístico que muita coisa que vemos travestida de cultura por aí.
Sim, porque a arte tem a função de abrir a mente e trazer reflexão, contestação e afins antes de qualquer resposta. E ele o faz num trabalho tão versátil com seus temas quanto com a sonoridade. Porém, com sua personalidade moldada e características próprias, o que já faz tudo aqui soar acima da média.
Em seus temas, Cam se perde em teorias da conspiração, confusão, medo, ansiedade, ego e outras coisas. Como poucos fazem, ele dá margens consideráveis de interpretação, permitindo que o leitor (futuro ouvinte) raciocine por conta própria, sem exigir contemplação, mas sim a busca por questionamentos.
Musicalmente no entanto, ele entrega em “Dead Internet” (que é um belo nome, aliás), uma sonoridade que mescla o hip-hop, R&B e música eletrônica de uma forma tão própria, que dificilmente iremos nos remeter a algo em específico, apesar das claras influências do mundo pop de alguns anos atrás.
“Dead Internet” é um disco de 16 faixas e quase uma hora de duração, mais precisamente 54 minutos. Não deixa de ser um trabalho longo, mas que Cam sabe entregar numa dinâmica que faz com que ele não seja cansativo, muito pelo contrário. O disco nos puxa a uma viagem viciante, tamanha sua atração e versatilidade.
Destacar uma ou outra composição aqui é difícil, afinal de contas, estamos diante de um disco que tem um equilíbrio impressionante entre as faixas. Porém, para o ouvinte se situar, algumas faixas chamam atenção de cara, além de dar autonomia ao trabalho, permitindo audições individuais.
Uma delas é “Crown vs Pedestal”, que abra o disco com uma mescla interessante de R&B e dream-pop, mas sem soar sombria e sim futurista. Tudo graças ao teor eletrônico que a permeia. O hip-hop alternativo aparece em “Pleasant Monsters & Mean Sprites”, trazendo um poderio bem atual.
A batida afrobeat e os vocais climáticos de “Orwell” devem ser conferidos também, além do trap “Apples & Oranges” e a encantadora faixa título que incorpora um pop lo-fi de melodias cativantes. Mas, é melhor ouvir “Dead Internet” por completo, pois ele nos dá uma gama de qualidade e interpretação, assim como sua temática.
