Quem gosta de verdade de música, sabe que o blues é um estilo bem específico. Sua levada, abordagem, timbres e afins são muito característicos, identificáveis e inconfundíveis. Logo, apostar no estilo tem que ser da forma mais criativa e com muita personalidade, pois pode-se correr o risco de soar como mais do mesmo.

O projeto musical Blues Corner, com sede em Paris, é idealizado por Phil Roman e Seb Oroval, uma dupla do qual a jornada traz de volta às raízes do blues e é um testemunho de sua amizade inabalável e energia criativa. Talvez essa amizade, obviamente além do conhecimento de causa, seja um dos principais fatores que contribuam para essa identidade própria.

A origem francesa, que convenhamos não tem muita tradição no estilo, ajuda a deixar a sonoridade clássica, mas o teor que encontramos no disco se resume a algo um pouco diferente e sabemos exatamente o que motiva isso.

Após uma carreira internacional de sucesso em Londres, a decisão de Phil de retornar à França marcou uma mudança profunda em direção à redescoberta de sua paixão musical. Cercados por uma família de músicos, os esforços colaborativos da dupla resultaram em uma mistura única da vibração elétrica de Chicago com o calor da música americana.

Fruto desse resgate sonoro, o novo disco do Blues Corner mostra as habilidades do duo em não soar mais do mesmo, porém, também em não ficar reinventando a roda. Trata-se de uma prova de como é possível seguir uma cartilha e soar da própria forma. Tudo em 16 músicas onde, em nenhum momento, eles deixam a peteca cair.

O disco começa de uma forma diferente, com a intimista “Living My Life”, que traz cadência, e já revela alguns flertes com o country e americana, que aparecem em outras oportunidades no decorrer do disco.

Já flertando com o rock clássico, “Set Me Free” chega em seguida sem permitir que a dupla entre em marasmo e levantando a bola após a primeira misteriosa faixa. Detalhe para o piano magistral, como não se faz há muito tempo. Já “Highway of Love” traz o country escancarado, com direito a guitarra slide distorcida e tudo, além de um ritmo extremamente cativante.

O blues tradicional, com um riff de violão espetacular, dá as caras em “Stone In My Shoe”, que só nãos resgata os primórdios sonoros do estilo, mas também essa temática sarcástica, de falar com certo humor dos percalços da vida. A gaita ficou fenomenal!

Enquanto isso, “Double Screen”, que traz a gaita de volta, mas num solo fenomenal, entrega vibrações da americana com uma cozinha consistente. “Train Passing By…” é mais uma balada típica, mas sem aquela coisa melosa e sim soando mais branda para dar um respiro.

O blues country cativante, com um ritmo vanguardista retorna em “I’m Smashed”, enquanto a seguinte, “Leaving For Real” chega com um ritmo mais descontraído e a distribuição dos instrumentos um pouco mais expansiva, trazendo de volta o blues mais tradicional, porém numa veia mais contemporânea.

Falando em ritmo tradicional, com um pouco mais de dinâmica e trazendo clara referência o boogie-woogie, “Music is King” encanta pela coesão da dupla e o refrão quase que hard rock. Talvez uma das mais densas do disco. Mantendo a energia, e trazendo um piano essencial de volta, “What S Good What S Bad” chega num ponto crítico do disco, mas é aí que vemos o poderio de Phil e Seb.

Exatamente na faixa “Blues Paradise”, com esse seu nome característico, eles recuperam o jogo, quando o disco chega num ponto maçante. Afinal de contas, são 16 faixas, o que vai muito contra a forma de consumir música atual. Servindo quase como um interlúdio, a música deixa nos um respiro para a reta final.

Reta final que começa com “Our Legacy”, mas que traz um ar impressionante em “Piggy Bank Blues”, que praticamente tem todos os elementos que o disco traz. Ritmo cadenciado, mas dinâmico, piano complementando com requinte, voz de drive quase sussurrada e solos magistrais de guitarra.

“Rock N Rolling” se entrega no próprio nome, mas temos que ressaltar que se trata de uma faixa que, apesar dos temperos do rock, ainda tem sua essência inspirada no blues, mantendo a identidade do Blues Corner intacta.

“4 Guys On The Road”, praticamente e a terceira balada do disco, é a melhor faixa nesse quesito, pois traz referências do hard rock, o que dá um teor mais profundo. Mesmo assim a dupla não cai em romantismos baratos e ainda entrega um solo de guitarra que chega a dar arrepios.

Por fim, para fechar “All that we are” com chave de ouro, o Blues Corner foge do comum neste quesito com a levemente introspectiva “The Blues Is About Giving All What We Are”, uma faixa que serve como uma deixa do que está por vir. Já no aguardo!

https://www.instagram.com/bluescorner92

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