Não é fácil traduzir a música, principalmente quando ela vem em um conceito instrumental em temas. Requer, além de tudo, muita habilidade e senso, afinal de contas, contar sentimentos através de sonoridades exige muita sensibilidade por parte do artista. Logo, não se trata de algo que seja para qualquer um.
E temos aqui um destes casos. Trata-se do produtor musical Bite The Boxer, projeto de música sombria e cinematográfica de Matt Park, baseado em Dorset, Reino Unido, que está se tornando conhecido por misturar gêneros tão diversos quanto trip hop, post-rock, neoclássico e IDM para criar um som tão único quanto perturbador.
O Bite The Boxer começou a lançar música em 2020. Desde então, ele causou impacto com canções que variam do industrial ao alt-pop, trip-hop e ambient lo-fi. Inspirando-se em sua vasta experiência em projetos musicais anteriores, que vão do punk ao indie rock e metal, Bite The Boxer possui um som que conquistou não apenas o ouvinte casual, mas também a imprensa musical e estações de rádio locais, nacionais e internacionais em todo o mundo.
E ele se envereda por temáticas que, assim como vários estilos moldam seu som, culminam em seu mote. A sensação de desgraça iminente, mas com um vislumbre de esperança, é inspirada por videogames de terror e filmes distópicos e pós-apocalípticos, e está presente em grande parte do catálogo do artista. Não é diferente neste seu mais novo disco, “Haunted Remains Pt. 2”, que acaba de ser lançado.
E a sonoridade que será encontrada aqui não soa nada comum, afinal de contas são 10 faixas que tencionam conforme o tema, além de trazer leves toques experimentais que caracterizam a sonoridade do projeto. Porém, tudo sempre objetivo, onde tudo é destilado em pouco mais de meia hora.
E Park explica. “Quando eu estava trabalhando nessas músicas, eu estava brincando com extremos… o quanto eu consigo distorcer um piano? Quão horrível e distorcido eu consigo deixar um som coral suave? Quão grande eu consigo fazer algumas camadas simples soarem? E então reduzir tudo ao mínimo por apenas um segundo. Acho que é a minha experiência com o punk se manifestando.”
E o estranhamento (no bom sentido), começa com uma das faixas que foi um single prévio. Trata-se de “YoY”, um trabalho que começa com um ar misterioso, batida programada de fundo e um sintetizador que nos revela leves toques de horror, além das guitarras oriundas do industrial, esta última que aparecerá com mais constância.
Com uma bateria eletrônica que finaliza explorando o grave, “Fearful Hope” chega mais vibrante e traz algumas vocalizações. Vale lembrar, que estes elementos de vozes aqui fazem parte dos arranjos, não soando à frente e/ou como principais. Enquanto isso, outro single prévio, a faixa “Venom Test” traz um início reverberado inspirado no dream-pop, mas logo ganha intensidade e cai numa veia industrial, sendo uma das faixas de climas mais versáteis do disco.
Em “Winter Swey” os teclados distorcidos, tão explorados e mencionados por Park aparecem com ênfase, mostrando a pegada que ele imaginou para o disco de uma forma concisa. É muito interessante como soam, pois a vibração é daquelas que invadem a alma.
Você prefere uma viagem que ao mesmo tempo em que soa dinâmica, ganha teores atmosféricos e guitarras mais orgânicas? Ouça “We Can’t Just Fly”, um post-metal bem estruturado, que prova a variação da sonoridade do projeto. Tanto que “Rituals”, outro dos singles prévios, soa distinta, mas sem perder a essência do Bite The Boxer, trazendo vocalizações operísticas que culminam em um ritmo de terror.
Falando em ar atmosférico e vocalizações, “Hive Mind” chega com um piano clássico e misterioso em seu início e conforme cresce, cai por ares atmosféricos com uma camada levemente empoeirada de sintetizadores e vocais que sussurram. A faixa soa perfeitamente como uma trilha de suspense. Enquanto isso, “On This Hill” chega com um fundo de puro terror e um dedilhado intimista de guitarras, mostrando um lado mais orgânico de Park, que nos remete aos experimentos esporádicos do Black Sabbath.
“Ender Times”, que apesar do título ainda não é o fim exato do disco, é uma música de batida eletrônica com os teclados que vibram e uma cadência cheia de suspense, onde as vocalizações líricas retorna, criando novamente um clima de terror, bem típico do Halloween. E, por fim chega “Reborn Under The Air”, uma música que podemos classificar como bela, principalmente diante do ar caótico e misterioso que “Haunted Remains Pt. 2”. Nela, Park não foge dos clichês de uma faixa que fecha um disco, trazendo inclusive um leve ar melancólico. Por isso, fãs de doom, shoegaze e post-rock irão se identificar.
Sem dúvidas, o Bite The Boxer consegue moldar ainda mais sua personalidade com o novo disco, pois o que se ouve em “Haunted Remains Pt. 2” é um trabalho praticamente único, com características próprias e trejeitos muito particulares. Belíssimo trabalho!
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