Ayloradia | Nick Pike anuncia álbum com camadas exuberantes de piano e cordas

Cada pulso e cada dupla de notas expressa pelo piano soa como um suspiro, mas não um suspiro de alívio. Esse senso de transpiração de ar vem repleto de um pesar que não cabe em palavras. Melancólico, cabisbaixo. Não há lágrimas, mas existe, sim, uma densidade que guarda um sentimentalismo profundo. Indo nesse fluxo, a canção, conforme amadurece a sua própria estrutura, recebe violinos que constroem uma valsa serena de conotação branda. Com o frescor desprendido de tal harmonia, a faixa passa a contar com um viés não somente transcendental, mas espirituoso, como se trouxesse a mensagem da superação associada à ideia do além-vida. Não é difícil que, entre rompantes de uma melancolia emocionante, o ouvinte identifique marcantes estímulos contemplativos a partir da sincronicidade alcançada entre o escopo de cordas e o próprio piano. Eis aqui uma dramaticidade com final reflexivo que é capaz até de deixar o espectador em choque por ser surpreendido com uma sensação de súbito vazio enquanto o violino reverbera pelo ecossistema. Uma forma interessante de fazer, desse instrumental, não apenas a música de abertura, mas, especialmente, a faixa-título.

Entre as brisas vindas do horizonte fazendo a vegetação valsar, o crepúsculo nascente se anuncia por meio de uma valsa suave, macia e adocicada desenhada pelos violinos. Rapidamente, eles se veem acompanhados de um piano tão suave que suas notas soam mais como um devaneio agudo do que propriamente algo prematuramente melódico. Felizmente, conforme a música avança, o ambiente vai sendo tomado por uma energia esotérica tão profunda que é como se conseguisse transportar o ouvinte para um ambiente extrassensorial. Com uma delicadeza estonteante e sugestões oníricas providenciadas pelo tilintar dos chimes, a composição ainda se destaca por adquirir uma postura introspectiva longe do drama ou da pungência, possibilitando, assim, o domínio da suavidade e da sutileza. Edenflower se consagra como uma obra com momentos de grandeza sensorial e súbitos de silêncio que impressionam pela adoção de um drama enraizado no dulçor e na fragilidade.

A atmosfera que se tem durante a introdução sugere a imersão, o aprofundamento. É como estar no fundo do mar, levitando no compasso das ondas e sentindo a leveza do corpo fazer seu exercício. De natureza um tanto fantasiosa, a canção, mesmo diante dos dedilhares do piano, explora um caráter devidamente atmosférico que combina torpor e transcendentalidade de uma forma bastante equilibrada. Agraciada por momentos em que as súbitas elevações levam para um instante de pausa dramática, Pairah Dance traz a  contemplação sob uma ótica mais solene de forma a se aproximar dos vieses luterânicos de Johann Sebastian Bach.

É interessante como, mesmo que não seja algo proposital, a canção trabalha a tensão e o suspense diante de sua paisagem introdutória. Introduzindo um piano levemente pulsante enquanto os violinos criam uma vitrine emocional tocante a partir de seu sabor adocicado e de sua postura compassiva, Arcata chama a atenção pelo seu formato teatralmente dramático em razão da combinação de camadas que esboçam os violinos em diferentes performances. Fazendo com que a tensão e a expectativa cresçam a cada curva sônica, os instrumentos soam como um verdadeiro embate, um processo crescente e expressivo que desemboca no clímax a partir de um silêncio inesperado. Ainda assim, a delicadeza é algo que, invariavelmente, domina todo o seu contexto, tornando-a uma faixa expressiva e emocional.

A ideia do espacial é muito bem defendida durante a introdução graças à maneira como o instrumental se comporta. Caindo em um ambiente vasto em que os violinos mantêm uma linearidade harmônica pincelada pelos brandos e pontuais tilintares adocicados do piano, a canção escancara detalhes marcantes na estética musical do próprio Nick Pike. Mesmo sendo encontradas nas canções anteriores, a aceleração e a desaceleração melódicas participam desse contexto de uma forma brandamente melancólica de forma a trazer o rubato marcante de Chopin sob vestes mais nítidas. Inclusive, o próprio título Into Dust, associado à atmosfera cinzenta desenhada pelo instrumental, confere uma similaridade emocional com o sentimento de perda enaltecido pelo compositor polonês em suas canções produzidas no exílio. 

Nesse ponto do álbum, mesmo que esse seja respaldado por uma track list total de 10 faixas, o ouvinte vivenciou momentos importantes no que se refere à musicalidade de Nick Pike. Desde a identificação de sua própria essência sonora até suas influências do universo da música clássica, o espectador se vê possuinte de argumentos extremamente contundentes a respeito de tal universo.

Para começar, Ayloradia é um projeto marcado expressamente pela profundidade emocional, aspecto que permite a contemplação, mas também momentos de drama, melancolia, nostalgia e plenitude. Diante da combinação dos arranjos de cordas vindas dos violinos com a base enfática proporcionada pelo piano, existem menções que vão desde um viés sacro até algo de viés luterânico e espiritual.

Eis que se pode perceber uma intersecção entre as roupagens exploradas por nomes como Johann Sebastian Bach e George Friedrich Handel, especialmente no que compreende a contemplação e o esotérico. Contudo, a música de Pike traz uma característica marcante: o rubato. Expressamente marcante pela apropriação de Frédéric Chopin, essa técnica está muito presente em todo o álbum a partir da combinação de aceleração e desaceleração harmônico-melódica. 

Outro indício da importância de Chopin na música de Pike é a inserção de identidades sonoras que remetem às mazurcas polonesas. O uso de um compasso ternário e a mistura de sentimentos de melancolia e nostalgia a partir do som denunciam tal feito. Não à toa que Edenflower é a principal música nesse quesito. Ela traz melodias líricas típicas dos noturnos chopinianos, além de fornecer um bom equilíbrio entre o próprio escopo melódico e o silêncio.

Como uma verdadeira viagem entre o espiritual, o saudoso, o melancólico e o silêncio, Ayloradia mostra que Nick Pike consegue equilibrar muito bem o modernismo com o tradicionalismo erudito. Sem ser capturado pela vergonha de exibir suas influências, o músico as funde em sua própria sonoridade a tal ponto que alcança a sua verdadeira e inestimável autenticidade: o emocional contemplativo nostálgico-melancólico.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/6FGaEN1KQ3UpX1OJqtyeHF

Site Oficial: https://www.nickpikemusic.com

YouTube: https://www.youtube.com/@nickpikemusic13

Bancamp: https://nickpikemusic.bandcamp.com/

Instagram: https://www.instagram.com/nickpikemusic/

Tik Tok: https://www.tiktok.com/@nickpikemusic

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