Não é só a introspecção que chama a atenção do ouvinte. Realmente, esse é um caráter sensório-postural latente diante da paisagem sônica de Return In, a faixa de abertura de twice born, mas não o de maior destaque. Fazendo com que o espectador vivencie ímpetos de insegurança e brisas de fragilidade, a canção tem uma base sonora assustadora a ponto de causar calafrios. Pautada na sobreposição vocal, a canção, conforme avança em sua desenvoltura, destaca uma paisagem sônica que muito lembra o canto gutural presenciado nas igrejas. Curta em duração, mas não curta em experiência, a faixa é um produto que esmiúça a capacidade da harmonia vocal entorpecer o espectador.

Diferente da canção anterior, ou melhor dizendo, bastante distante da estrutura anteriormente adotada, a presente faixa alça voos perante a experimentação de camadas atmosféricas que se fundem com brisas curosamente espirituosas. Introspectiva e trazendo um enredo lírico devidamente trabalhado perante o singelo sobrevoo da excentricidade sônica do banjo, God’s Own Speed explora, com delicadeza, os pulsos rítmicos sem interfeir na viagem sensorial que ela fornece ao espectador. Entre o torpor e um breve toque de azedume, a faixa se reverncia como uma boa expoente do dark pop atmosférico.

Em 5D o ouvinte acompanha Steinsdotter explorando um timbre vocal mais aberto que rememora aquele estilo de canto muito comum nos anos 50, dando à canção um gracioso toque retro. Extasiantemente valsante e aveludada, a faixa ainda surpreende por ser agraciada pela sutileza charmosa e quase santificada da harpa e suas notas de nuances floralmente transcendentais. Curiosamente romântica, a composição chama a atenção por ser respaldada por uma quebra rítmica estonteante que a faz sair do torpor para um incitar de frenesi a partir dos pulsos firmes, duros e sequenciais do bumbo, denotando uma cadência mid-tempo. É assim que a obra exalta a sua identidade dark pop associada a um clima futurista e provocativo que associa ao electropop alternativo.

É interessante atentar à ousadia da cantora, que, aqui, permite que a experimentação alse voos mais longos, detalhe observado, inclusive, pelo sonar de zumbido funcionando como elemento introdutório. Conduzindo o espectador a uma atmosfera pulsante e dançante que se mistura a um clima noturno urbano com uma estética dark pop pulsante, a canção explora seu ímpeto dançante a partir da influência de nomes como Fever Ray, Tove Lo e Lykke Li. Regida por um clima sensual e curiosamente lúdico, HoneyBee bebe de um beat forte que a auxilia a imergir no campo estilístico do queer pop.

O som de passos firmes ressoa livremente pelos ouvidos do espectador conforme o enredo lírico vai se apresentando diante de uma veia verbo-interpretativa bastante sensual. Sombria em certo aspecto, a faixa, a partir de suas batidas pesadas e repetitivas, a faz assumir uma estética mista de club industrial e techno alternativa que se destaca, especialmente, pelo groove saliente e grave efetuado pelo baixo. É assim que h0e$ garante para si uma atmosfera agressiva, provocativa e performática que destaca a desenvoltura quase teatral da cantora.

Definitivamente, ao se atentar à audição de twice born, se percebe estar em contato com uma artista multifacetada. Não apenas em razão de suas posturas lírico-interpretativas, mas, também, pelas atmosferas que auxilia a construir, Steinsdotter faz de twice born um material definitivamente performático.

Ainda assim, talvez teatral seja a melhor palavra para se referir à cantora. Expressiva por meio da voz e se apoiando nas diversas texturas fornecidas pelo álbum, ela envolve o ouvinte e o despeja em um ecossistema de identidade puramente experimental. Passando do dark pop e atingindo até mesmo o queer pop, twice born é um disco que ainda contempla paisagens sônicas como o underground pop e o alternative dance com bastante desenvoltura.

Não é por menos que suas cinco primeiras faixas chamem mais atenção. Elas trazem, com mais destaque, cada um dos fatores até aqui listados. Ainda assim, títulos como Inspired By Gilgamesh, com sua atmosfera épico-ritualística; e Leonard Cohen Was Right, com seu viés art-pop introspectivo, também merecem a devida atenção por fazer de twice born um divisor de águas na carreira de Steinsdotter.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/35KNaNrpjGSXqMHJf3p67q

Instagram: https://www.instagram.com/iamsteinsdotter/?hl=en

Site Oficial: https://www.steinsdotter.com/#:~:text=Steinsdotter%20is%20a%20multidisciplinary%20artist,passions%20of%20our%20modern%20moment.

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCteVTqQ1Bo010al3Qywq58w?app=desktop

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