Ela já tem um início marcado por uma estrutura audaciosa. Sem um instrumental maciço e de desenvoltura gradativa, a canção opta por promover o seu nascimento por meio de uma sonoridade completamente enxuta, unilateral e intimista. Com um som grave e reverberante dominando o ambiente outrora inóspito e completamente silencioso, a faixa se propõe a esboçar os seus primeiros sinais de delicadeza.
Conforme avança em meio à sua própria desenvoltura, o que acontece a passos lentos, mas não a ponto de tomar a identidade morfinesca, a obra vai sendo respaldada por uma guitarra que se apodera do escopo melódico com uma sonoridade aguda que se aproxima generosamente do limite da estridência. E o interessante é notar que esse resultado é alcançado apenas com poucas cordas, solicitadas com um generoso espaçamento em cada reverberação.
Conduzindo o ouvinte a um movimento decrescente de escalas, é até interessante se atentar à forma como o agudo se torna grave, mas sem afetar na singeleza e no seu minimalismo absolutista, a faixa acaba atingindo um patamar introspectivo de contornos esotéricos e mântricos que muito se associa ao processo de imersão sugerido pelas atividades mediativas.
É nesse instante em que o enredo lírico finalmente começa a ser devidamente vivenciado. Explorado a partir da voz doce, aveludada e de extrema singeleza de Connie Lansberg, ele denota contornos frágeis, mas aconchegantes em razão da textura de veludo igualmente exposta pelo timbre da cantora. A partir daí, o processo de imersão se torna mais profundo e a atmosfera, mais terna.

O curioso, no entanto, é perceber que, mesmo apenas na presença da guitarra como elemento propriamente melódico, a canção começa a transpirar conotações sensoriais associadas à melancolia. Sem drama, pungência ou indícios de um sofrimento lacrimal e pegajoso, essa vertente emocional vai servindo como uma espécie de catapulta para com as brisas reflexivas sugeridas pela obra em sua forma totalizante.
Tudo isso acontece diante de um lirismo que se usa da metáfora da queda para mostrar, aparentemente, como um momento trágico e infeliz foi capaz de transformar a visão e a experiência em relação à vida. Misturando ideias de censura e confinamento, o que desemboca em lapsos de angústia, desespero e agonia, Aeroplane simplesmente apresenta alguém disposto a abrir as asas e ser, novamente, livre.
É necessário pontuar, também, a escolha de palavras feita por Connie. Verão e outono. Inverno e primavera. Eis aqui boas indicações da passagem do tempo e de uma interessante – e possível – menção da demora em relação ao alcance da superação. Aviões, borboletas, pássaros e abelhas, por outro lado, guardam consigo a ideia da ânsia pela liberdade e por viver a vida em sua forma pura, de página virada e rosto erguido.
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