O veludo é uma sensibilidade muito bem explorada durante os primeiros sinais sonoros da composição. Por meio de notas duplas pronunciadas por um teclado que sugere nuances suspirantes que garantem brechas de reflexão, a composição ainda permite a identificação de sonares trepidantes que indicam a textura típica do chiado permeando a sua paisagem. Com tal percepção de crueza, não é difícil para o ouvinte colocar o lo-fi como um dos ingredientes estruturais a marcar a construção arquitetônica da obra. Ainda assim, é interessante perceber como a gradativa proeminência do torpor vai sendo barrada por meio de pulsos firmes muito bem colocados em momentos pontuais da desenvoltura sonora. Com o auxílio da agudez levemente trepidante do pandeiro, inclusive, o domínio da lucidez fica sendo mais fácil de se alcançar, mesmo diante da presença do toque ligeiramente hipnótico e açucarado da flauta. Mínimamente sensual, Dance Before The Throne consegue se aventurar pela introspecção sem parecer piegas ou apelativa, afinal, com suas brisas que se associam levemente à bossa nova, o charme e o requinte se tornam uma importante marca de sua desenvoltura.
Seu despertar pode ser definido como um processo um tanto audacioso. Não, ele não é agraciado por brilhantismo ou exuberância em sua forma léxica, mas o fato de ser consagrado a partir da textura seca e repetitiva do scratch dá à canção uma brisa de versatilidade estrutural que levanta a sua energia. No entanto, logo no instante seguinte, a canção propõe uma retomada da suavidade. Entre notas agudas de um piano que se apresenta de forma cuidadosamente trotante, o suspiro pode ser identificado, mas em um grau notavelmente menor do que aquele observado na canção anterior. Agraciada pela presença do scratch espalhada pelo cenário de forma pontual, Elevate tem, em si, a capacidade de mostrar a presença de elementos percussivos que, subitamente, inserem momentos de pressão na atmosfera sonora. Ainda assim, o fato de a sua natureza harmônico-melódica ser linear e, portanto, um pouco repetitiva, torna a obra um produto hipnotizante e quase entorpecente.
Aqui, a introspecção e o torpor andam lado a lado de maneira bastante precisa. Desde o seu amanhecer imediato, a forma como o piano se combina com uma base atmosférica providenciada pelo sintetizador dá a ela a mesma percepção de Dance Before The Throne: a ideia de que o R&B é um estilo presente em meio às ligeiras nuances sonoras exploradas pelo instrumental. No entanto, é importante pontuar que, no caso de The Wave, a morfina é uma sensorialidade intensa que invade a sensibilidade do ouvinte de uma forma quase agressiva. Macia, detalhe inegável, a composição tem, em si, pinceladas de uma textura ácida que se fundem curiosamente com uma superfície mais opaca trazida pelo batuque que brinca entre o torpor e a lucidez. É assim que o imagético e o atmosférico ganham um andamento sincopado diante da cenografia da faixa, um produto que pulsa como um coração acelerado, mas de energia interessantemente controlada.
Entre o sonar aveludado típico do fender rhodes, o ouvinte se depara com tilintares agudos e adocicados que conferem ao ambiente uma noção onírica marcante. Quase como se fosse capaz de promover a expansão do inconsciente por meio de seu minimalismo estético-estrutural, a canção traz consigo uma presença ainda mais marcante do saxofone. Por meio dela e de sua consequente acidez, I AM Power se beneficia da mistura da estridência e da sensualidade do instrumento de forma a se permitir explorar o senso de vivacidade. O expansivo e o solar, a partir de então, fazem da canção um produto aveludado, swingado e contagiante sob um viés autêntico em relação àquilo que foi explorado no álbum até então.
Desde o seu início imediato – e graças ao fato de ser a bateria o elemento responsável por puxar a sua introdução, a canção permite que o ouvinte vivencie um momento puramente acústico. De sangue orgânico bastante contundente, o instrumento vai dominando o crepúsculo nascente da obra de forma a lhe dar uma sensualidade sincopada atraente e charmosa. A partir daí, o jazz se faz presente na receita rítmica em razão do compasso 3×4 e da ampla participação da cúpula do prato de condução em união com a haste da caixa. Requintada e charmosa também em razão da forma como o piano se movimenta na base harmônico-melódica, a faixa se vangloria da intervenção do trompete de forma a trazer um tempero mais aberto e estridente à sua paisagem. Chamando a atenção por ter momentos truncados no que se refere à sua desenvoltura, The Jazzy Hop, pela forma como desenvolve a sua esfera rítmica, traz consigo uma natureza sincopada que denuncia não apenas o rap em sua forma bruta, mas, especialmente, o boom bap, mesmo que perceptível de forma extremamente suave.

Marcada pela exploração escancarada da textura sintética diante de sua sonoridade, Level Up não demora em brincar com as nuances de torpor e lucidez em meio a flertes para com uma paisagem mais inclinada para o eletrônico. De andamento sonoro brando de forma a explorar uma postura confortavelmente contemplativa, a faixa ainda chama a atenção do ouvinte por ser agraciada por inserções de uma dramaticidade ousada a partir da desenvoltura densa do violoncelo na esfera harmônico-melódica. Entorpecente ao mesmo tempo que se mostra sob silhuetas aromáticas diante de seus contornos curiosamente melancólicos, Level Up é preenchida por beats compassados e caixas de textura áspera que denunciam a presença do rap em sua atmosfera estético-estrutural.
Ao mergulhar na audição atenta de A Different Frequency, o ouvinte simplesmente se surpreende. Afinal, quando se trata de um produto instrumental, não vem à mente a ideia de um material unicamente sonoro pautado no universo do rap – e isso é justamente o que R3b3l I propõe com seu mais recente álbum.
Caminhando pelas suas 12 faixas, o espectador pode até se deliciar com texturas amaciadas, aromas florais e sabores cuidadosamente açucarados. Pode esbarrar em requintes que trazem consigo o jazz para o centro das discussões e até introduzir a embriaguez como importante energia sensorial, mas a base rítmica, mesmo que extremamente delicada, sempre afirma que o rap é o seu alicerce, o seu coração.
Com a crueza típica do lo-fi, essa vertente sonora ganha um caráter orgânico latente que, mesmo diante de intervenções de texturas mais associadas com o universo da música eletrônica, se fortalece e se vale pelo seu espírito orgânico. Agraciado, ainda, por momentos de uma surpreendente dramaticidade, o disco traz, também, Ancestors como uma faixa importante no que tange à totalidade da sua track list. Isso acontece pelo simples fato de ela combinar pulsos duros e sincopados com uma atmosfera que mistura contemplação, transcendentalidade e introspecção associada ao torpor. Dessa forma, A Different Frequency consegue salientar, com maestria, a exploração de temas como amadurecimento e autoconhecimento de forma a promover profundas reflexões.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/3jwGzJZ6b8uUFZ17eVymJz
Soundcloud: https://soundcloud.com/user-482810983/tracks
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UC27yshAesDUPIL543enIgWA
Tik Tok: https://www.tiktok.com/@r3b3l_i




