A mansidão já se apresenta com certo viés de exuberância. Com uma delicadeza incontestável, o piano se apresenta da maneira mais introspectiva possível em meio a notas de um ligeiro trepidar decrescente. Imediatamente a isso, o instrumento envolve o ouvinte perante uma abertura sensorial no que tange ao aspecto do torpor, mas não aquele capaz de roubar a lucidez, mas sim aquele em que coloca o espectador em órbita enquanto cada nuance sônica é devidamente degustada. Onírica em sua máxima essência graças ao manejo do instrumento feito por Leon Hsu, Contrarian chega a amadurecer o seu aspecto letárgico enquanto uma aparente proposital linearidade harmônico-melódica começa a tomar forma. Mantendo, portanto, a mesma linha estrutural, a faixa acaba esbarrando em momentos de súbito swing antes de retomar a própria compostura sequencial, detalhe que lhe confere uma identidade alegremente coloquial e sem elitismo, atingindo, portanto, todas as classes com a sua natureza sonora.
Ainda que não houvesse um ânimo propriamente dito na canção anterior, sem dúvida ela soa mais expansiva e, portanto, aberta e convidativa em relação a essa em processo de desenvolvimento. Mais intimista, vulnerável e com fortes inclinações reflexivas, a presente faixa não deixa de ser frágil, mas faz com que a sua estrutura melódica explore, ousadamente, inclinações que pendem para uma sensorialidade mais dramática. Inclusive, diante desse aspecto, é até possível de se identificar brisas de tensão fluindo pela melodia em desenvolvimento, ainda que não de forma escancarada ou mesmo apelativa. De caráter interessantemente teatral, a faixa até demonstra explorar uma maior complexidade melódico-idiomática, mas o resultado parece ser o mesmo: pouca capacidade de percepção das suas próprias nuances por parte do ouvinte. Ainda assim, é um fato que This Time Is Different faz com que a sua brisa melancólica soe interessantemente dançante, mesmo que não seja especificamente expansiva ou propriamente sorridente. Surpreendentemente, porém, quando o ouvinte pensa já ter apreciado tudo o possível, a faixa rompe com a mesmice e mergulha o espectador em uma súbita desenvoltura dinâmica cuja cadência ganha uma ignição ligeiramente acelerada, conferindo à estrutura da canção brisas de um rubato bachiano marcante.
Não é necessariamente o torpor que marca o despertar da composição, mas, sem dúvida, ele envolve a experiência sensorial da composição de forma surpreendentemente contagiante. De natureza aromática, delicada e até mesmo valsante em certo aspecto, a faixa caminha por uma maciez estética que, no que tange à textura sonora, é como o veludo entregando conforto e aconchego à audiência enquanto a fluidez amadurece como o seu próprio alicerce. Tal como se conseguisse construir uma atmosfera semelhante à aura de alamedas francesas, especialmente parisienses, com seus cafés e bares que conferem uma energia não necessariamente boêmia, mas especialmente graciosa diante de seu envolvente expansionismo interativo, Stay Neutral é uma obra de identidade naturalmente envolvente. Com requintes de uma alegria sem exageros, a faixa se destaca pelo seu fecho suspirante e pelos seus ecos frágeis.
Não é impressão. A presente composição tem exatamente a mesma introdução que aquela presente em Stay Neutral. Suas notas, sua forma, sua cadência. Tudo aqui é idêntico até um novo dinamismo se apresentar após os primeiros versos. Nesse momento, enquanto o sincopado faz as vezes de um ritmo embrionário perante a sua estrutura, a faixa exorta uma leveza contagiante e até mesmo dançante em relação ao seu estímulo. Trazendo a atmosfera de bares de Nova Orleans, com seu entretenimento jazz e a sua atmosfera dançante swingada, Stay Neutral Stay Longer, com os seus mais de nove minutos de duração, ainda apresenta momentos de uma dramaticidade inquestionável enquanto a fluidez atinge um ponto de maturidade exuberante. Mesclando notas graves e um movimento melódico de natureza borbulhante, a faixa se consagra pela sua delicadeza estético-sensorial, mas especialmente, pelo seu fim gradativamente reverberante.
O que OHNomad entrega com A Fund Manager não é um simples EP instrumental. É um material que explora todas as nuances do piano em meio a uma coleção de quatro faixas que vão do dançante ao introspectivo, ao mesmo tempo em que o dramático conversa com o expansivo e o dinâmico, com o minimalista. Também não se pode esquecer das nuances sensoriais que fazem com que o ouvinte experimente a tensão, mas principalmente o aspecto de leveza.
Ainda assim, o maior trunfo do material é colocar o ouvinte em contato com uma mistura madura entre o erudito na sua forma classicista, com direito à adoção do rubato, e o jazz, a maior marca de Hsu. É assim que o EP se destaca como um produto orgânico naturalmente contagiante que traz à modernidade traços de um passado requintado e burguês que explora como as pessoas navegam pela dúvida, pela mudança e pela pressão em seguir a audiência a partir da experiência psicológica dos mercados. Tudo na base da improvisação diretamente associada à demanda da convicção pelo inesperado, tornando A Fund Manager ainda mais intrigante e marcante.
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