Eletrônico e orgânico, novo álbum do Longboat traz elementos como mote

Uma coisa podemos garantir ao leitor (futuro ouvinte) neste primeiro parágrafo. Independentemente do seu gosto musical, “Proud Of My Postcode”, mais novo disco do Longboat, será uma das coisas mais ‘gostosas’ que você ouvirá ao menos hoje. Afinal de contas, o trabalho recém lançado deste projeto é de uma qualidade difícil de descrever.

Mas, antes de discorrer as treze composições do disco, que se esfacelam em pouco mais de 53 minutos, apresentemos um pouco da banda, que irá nos ajudar a entender um pouco mais da proposta. Afinal de contas, também estamos diante de um projeto que atravessou o oceano para fazer morada em um cenário musicalmente riquíssimo.

A forma de trabalho do projeto é bem específica. Formado em Seattle, nos Estados Unidos, em 2011, o Longboat é um projeto musical de gênero fluido, liderado por um saxofonista tenor de jazz e compositor prolífico. Embora funcione frequentemente como um projeto solo em estúdio, o Longboat pode se expandir com a participação de músicos de rock e jazz, instrumentistas de cordas e sopros, além de vocalistas de apoio, conforme a demanda de cada composição.

O projeto conta com 39 álbuns gravados e mais de 500 canções escritas, o que prova a prolificidade de seu mentor. Este, chamado de “Proud of My Postcode” é o 37º e chega com todo um conceito sobre a mudança de endereço do artista, o que faz muito sentido. Musicalmente mantém o som focado no eletrônico, mas de uma forma orgânica, o que, além da qualidade, é um grande alívio em meio a tanta artificialidade e falta de criatividade nos tempos atuais.

O disco tem todo um conceito interessante por traz. O álbum surgiu de um fascínio de longa data pela Grã-Bretanha e pelos contrastes entre a vida no Reino Unido e Seattle, cidade natal do fundador do Longboat. Seattle é cercada por montanhas, florestas e vida selvagem, enquanto a Grã-Bretanha oferece algo totalmente diferente: milhares de anos de história incorporados em suas cidades, vilas e paisagens. Para o Longboat, essa história fornece uma fonte inesgotável de temas para observar e transformar em música. Não à toa o título é algo como “orgulhoso do meu código postal”.

Além disso, Longboat consegue transmitir a sonoridade exatamente como propõe as letras, variando e entregando uma consistência incrível. Cheio de ambientações, o trabalho transita pelo indie eletronic, eletropop, synthpop e eletrorock, mas sem nunca se prender a um deles e sempre mantendo o leque aberto.

“A Fox In Hoxton” abre o trabalho com maestria. Um groove inspirado no funk se une ao contexto indie e revela uma faixa vibrante que mexe com a alma do ouvinte. Enquanto isso, “Keep It Imperial” chega no ritmo mais dinâmico e produção suja com um toque de post-punk. Só não o é por completo porque as linhas vocais carregam mais descontração que é habitual no estilo.

“My Victorian Poltergeist” chega como um eletropop de vanguarda, com direito a sintetizadores mais raízes e que elevam o teor versátil do disco. “This Primark Jumper” é uma faixa mais intimista, beirando o gótico e com um trabalho de base mais experimental.

Chegando com um pouco mais de classe e sofisticação, com direito a um órgão primordial, “We Did It With Style” mostra uma sensibilidade incrível e melodias cativantes. Enquanto isso, “All Along The Fleet” é a primeira música que prioriza mais o aspecto percussivo, mas claro, ainda programado.

“The Dullest Blade” chega com aspectos também inspirados nas batidas, ainda mais experimentais, mas nos remetendo ao momento em que o synthpop flerta com elementos tribais. Um espetáculo. Já “Red Routemaster” traz de volta o teor mais descontraído e ganha equilíbrio graças ao trabalho vocal mais ‘sisudo’.

“Mudlark Life” chega com um eletrorock pulsante e de bases concisas, onde agrada por sua consistência e leveza na abordagem. Já “Waterloo Situation”, apesar de manter o lado descontraído, parece nos entregar uma profundidade mais sombria, e entrega um trabalho de backing vocals primoroso, destacando-se também por essas linhas sensacionais que aproximam o som do gótico mais uma vez.

“The English Summer Shill” já tem uma veia progressiva e chega a nos remeter a new age com uma pegada digna do soft rock, trazendo um pouco de teor retrô, que é uma das premissas do disco de Longboat. Enquanto isso, a faixa “Brixton Bill” chega mais incisiva, vibrante como deve ser e muito coesa, com certo ar agressivo, guardadas devidas proporções.

Por fim, o disco fecha com “Dead Man’s Hand”, que tem um título sombrio, mas uma veia excêntrica, do qual mais uma vez Longboat explora um contexto experimental do synthpop. Mas, a faixa passa longe de algo clichê para um encerramento e deixa tudo bem claro, vem mais coisas por aí. A mudança de andamento e clima são primordiais para manter a identidade versátil do projeto, que é coroada com muito bom gosto.

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