MatAre dá aula gótica em novo disco “Matar A Luz”

Temos em mãos um artista que já esteve em nossas páginas, mas que traz uma forma de trabalhar um tanto quanto nostálgica, assim como é a sua própria sonoridade. Trata-se de Matt Rousseau, que atende artisticamente como MatAre e é um músico, compositor e produtor musical baseado em Atlanta, Geórgia (EUA).

Anteriormente conhecido na cena eletrônica de Orlando sob o codinome Vibal, o artista reformulou sua identidade artística em 2020 para focar em uma sonoridade nostálgica e atmosférica. Desde essa reformulação, ele aposta em sonoridades voltadas ao post-punk, darkwave, dream pop e indie rock, sempre mantendo uma pegada atual para não cair no datado, mas não deixando a nostalgia de lado.

Inclusive MatAre se habituou a lançar álbuns, nadando um pouco contra a maré do mercado e forma de consumir música atuais. Dando sequência aos álbuns “Patternicity” e “Extinction Burst” — ambos também lançados em vinil, ele chega a esse novo e emblemático disco com o título magnífico de “Matar A Luz”.

Se o leitor (futuro ouvinte) achar que o nome está em português, acertou em cheio, pois essa foi a intenção do artista que simplesmente foi mais do que feliz na sua escolha. Afinal de contas a escuridão está muito mais ligada ao som proposto.

Com 11 faixas, o álbum surgiu de forma orgânica, com as canções revelando, gradualmente, um tema central: a impermanência — explorando relacionamentos, memórias, desejos e as mudanças inevitáveis ​​que todos enfrentamos. Gravado entre duas cidades e influenciado por atmosferas oceânicas e paisagens noturnas, o disco não soa exatamente conceitual, mas foca em aspectos semelhantes.

O som também prima por trilhar caminhos do post-punk e encanta pelo fato de MatAre conseguir transitar pelas diversas facetas do estilo, não se permitindo repetir e mostrando um conhecimento de causa incrível. Tudo em faixas objetivas, que totalizam pouco mais de 39 minutos.

O disco não faz cerimônias e abre com “Prologue”, trazendo tudo que o post-punk pode oferecer em seus quesitos. Ou seja, a guitarra limpa com leve reverb, o baixo marcante na cara e a levada dinâmica, inspirada no drum n bass, além do teclado de camadas atmosféricas estão ali. Tudo com um vocal típico, mas que soa mais reflexivo que o choroso de costume.

Ressaltando a produção e os timbres do “Matar A Luz” (será que é um trocadilho com o nome do artista também?), precisamos ressaltar o quão mais atual, não tão reverberada e robusta soa, o que acaba deixando o som mais contemporâneo.

Voltando ao repertório, a segunda faixa é “The Variant”, que soa imponente e com os graves além do normal. Os vocais mais sussurrados, de uma forma mais sinistra aproximam mais do gótico, assim como o ritmo um pouco mais direto.

“Dissolution” mostra porque foi um dos singles prévios, pois atende todos os requisitos que a proposta de MatAre precisa. A faixa tem a melodia na medida, o que a torna de fácil compreensão, além de um refrão simplista e típico, que mostra que o carro-chefe foi escolhido na medida. Destaque para as guitarras etéreas.

“A Knot That You Can’t Unwind” traz um pouco mais de imposição e um trabalho vocal com backings diferenciados, o que faz com que a faixa soe moderna sem perder seu contexto post-punk. Enquanto isso, “Dancing With The Spirits” é daquelas indicadas para as pistas devido ao seu ar agitado e dançante (com perdão do trocadilho), que cobre uma outra faceta da música gótica, sendo também um dos singles prévios do disco.

Com um pouco mais de drama e sensibilidade, caminhando por um lado avantgard e com leves pitadas de darkwave, “The One Thing” traz uma roupagem onde os sintetizadores dominam mas o lado harmônico. “Lucidiy” é daquelas que irá agradar em cheio as caras mais sisudas do cenário, porém com um fundo de teclados que encanta e não deixa a beleza ser suprida pelo olhar maléfico.

Eis que chega mais um dos singles prévios, a sucinta “Evil and Beautiful”, que encanta pelo instrumental todo detalhado e o refrão sutil, com backings providenciais e uma guitarra que nos remete aos tempos áureos do The Cure. Entrando na reta final, “Rapturous” chega com uma pegada na linha do The Mission, ao menos em sua dinâmica, encantando pelo leve groove, que faz com que a faixa soe diferenciada.

Apesar do nome forte, “Fork In The Road” é uma música que mantém a vibração mais pulsante do baixo, mas com linhas vocais leves deixa e um pré-refrão encantador, soa equilibrada e dá até um interessante respiro ao disco.

Por fim, “Matar A Luz” se fecha com a consistente “Imperfekt”, um goticão que intima, inclusive com vocais mais graves e que faz uma ode (mesmo que sem querer) ao The Sisters Of Mercy (repara no refrão um pouco mais seco e agressivo, contrastando com o verso). No mais, estamos diante de uma aula e uma preservação da música sombria!

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