O heavy metal descende do rock e o rock teve sua forma de ‘peso’ em cada década. Não era normal Elvis Presley dançando em frente à TV nos anos 1950, assim como os cabelos dos Beatles não era conservador nos anos 1960. Nos anos 1970 a diversidade estourou, com a chegada de nomes de peso com Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, assim como o punk no final da década e o progressivo e suas megalomanias.
Nos anos 1980 o heavy metal ganhou forma de vez, depois de ser moldado na década anterior pelo já citado Sabbath, além de Judas Priest e Iron Maiden. O estilo também ganhou atos mais extremos, como Venom, influenciado pelo místico Motörhead, além d também trazer os contextos esdrúxulos do glam.
Pois bem, dali pra frente foi história e, por consequência do rock, o metal se ramificou e nunca mais parou. Sempre passando por uma resistência inicial, os novos subgêneros surgem e esperam o tempo os maturarem, como sempre foi nesse cenário.
A nova era, com contextos modernos, novas formas de compor, produzir e tocar música, além do próprio consumo, já faz parte do momento e isso é mais normal do que se imagina. Fato que é uma realidade e temos um projeto aqui que representa bem essa nova era.
Trata-se do Wildcard Campfire, que é um projeto de música pesada focado em narrativa, que não revela a identidade de seus integrantes. O som combina uma atmosfera cinematográfica com o peso do metalcore melódico, djent, deathcore, post-metal, metal progressivo e metal moderno.
Eles chegam agora com um novo álbum, “Where God Grew Tired” — um disco de 10 faixas e 55 minutos que expande este projeto de música pesada para um universo cinematográfico mais amplo. Tudo com um conceito lírico por trás que deixa o trabalho diferenciado.
O disco foi concebido como algo que vai além de uma simples coletânea de músicas. Suas faixas funcionam como janelas para diferentes eras de um mesmo mundo: uma promessa que se transforma em doutrina, uma rebelião que vira guerra, uma violência que persiste dentro de instituições e indivíduos, e uma civilização que acaba por destruir a si mesma.
A humanidade retira-se para o subsolo enquanto novas formas de vida se adaptam sobre as ruínas; milênios mais tarde, os sobreviventes retornam, carregando uma memória distorcida do mundo que os antecedeu. O disco não narra essa história em uma ordem cronológica linear. Em vez disso, a sequência das faixas alterna entre diferentes vozes, lembranças e momentos históricos.
O trabalho abre com “The Beast With My Name”, uma faixa promissora, que traz praticamente todos os elementos do álbum, soando perfeita como uma abertura. Nela, técnica, feeling e peso se unem num groove metal magistral. Já “The Ashen Gospel – I. Before the Banners Burn” chega com um trabalho de fundo sinfônico que deixa tudo mais diverso, sem perder o habitual peso.
“Khinkali Inferno” soa como um melodic death metal, com riffs mais diretos e uma fúria imparável, sempre mantendo a identidade do Wildcard Campfire. Enquanto “The Ghost of My Past” cai para um metalcore semicadenciado e com a melodia um pouco mais açucarada, além dos vocais limpos dominando.
Com um trabalho fenomenal da cozinha, “The Tion Revolution” é daquelas que o groove domina e traz a brutalidade sem dó nem piedade. “The Ashen Gospel – II. When the Banners Burn” traz os teores sinfônicos de volta, mas junto com uma veia alternativa e um trabalho de alternância vocal primoroso. Destaque para as guitarras magistrais e um trabalho de coro fenomenal.
Com direito a vocais operísticos, “Paradise Has Walls” tem um contexto erudito, com levada inspiradora, mas curiosamente menos sinfônica que outras faixas. Com um clima todo emotivo e narrativas intensas, “The Legend of the Shanenigator” mostra que o Wildcard Campfire é mais versátil do que imaginamos, com seu metal moderno de climas épicos e intensos.
“Shackless of Blood” chega com mais uma veia sinfônica e, incrivelmente, o Wildcard Campfire consegue faze-la de forma a não soar repetitivo e ainda mesclar muito bem com sua melhor parte pesada, onde o thrash metal pede passagem. Talvez essa seja uma das faixas mais incríveis em meio a esse repertório rico e diversificado.
O disco fecha com “The Ashen Gospel – III. Where God Grew Tired” que não faz uma despedida comum, caindo em dramas de fechamento. Pelo contrário, com sua variação rítmica, um leve toque progressivo e um ar de mistério, a faixa prima por manter uma deixa, o que indica que a história continua, assim como um novo álbum também.
De contextos cinematográficos, “Where God Grew Tired” é um trabalho onde não se perde o controle e a identidade em nenhum momento, mesmo soando versátil e se utilizando de uma infinidade de elementos. Tudo muito bem mastigado, para que os fãs da música pesada e rock em geral apreciem sem ser muito exigidos.
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