Ainda que a tomada atmosférica apareça rápida diante da paisagem introdutória, ela já é suficiente para criar traços de uma embrionária dramaticidade que ganha corpo e profundidade com a presença de uma guitarra melódica cheia de estática e traços estridentes em meio ao seu veludo contorcionista. Adquirindo pressão, precisão e força a partir dos pulsos de uma bateria que tão logo assume a base rítmica por entre pulsos pautados em uma cadência mid-tempo, a canção caminha a passos em 4×4 enquanto uma voz feminina de base amaciada, mas de superfície equilibradamente aguda, começa a desenhar o enredo lírico. Na posse de Sofia-Emiliana, ela traz um sentimentalismo pegajoso a cada pronúncia proferida, tornando Two Shadows em uma obra de traços épicos, intensamente emotivos e com traços sombrios suavizados pela melodia digerível.
Trazendo um desenho sonoro parecido com aquele sugerido na obra anterior, a presente composição apenas exclui as brisas atmosféricas, mas a identidade da guitarra, aveludada e dramática se mantém enquanto adquire, inclusive, traços de um intimismo entorpecente. Agora, uma coisa é certa: Never At The Same Time é respaldada por elementos inéditos no seu desenho estético, como um teclado ampliando o seu caráter emotivo e uma voz masculina criando um bom contraponto com a maciez timbral de Emiliana. Entre sussurros e suspiros, a linha lírico-interpretativa permite que a composição assuma uma identidade não necessariamente pegajosa, mas penetrante em razão da combinação entre guitarra e teclado que torna a sua atmosfera grande e de um épico que rememora a estética do hard rock nórdico. Na forma de um dueto, a faixa exorta um conteúdo intenso e com um viés de profundidade que a torna minimamente visceral.
Trazendo consigo uma base atmosférica não tão intensa como aquela apresentada durante a composição de abertura, mas ainda assim notável perante ol desenho estético introdutório, a presente faixa, desde o seu início, promove a elaboração de um enredo lírico pautado no dueto de vozes anteriormente recepcionado. Com um desenho sensorial brevemente flutuante e entorpecente, Burn The Yesterday cresce ao ponto de conduzir o ouvinte a trechos de uma sonoridade pulsante e melodiosa que, uma vez mais, apresenta um hard rock bastante melódico principalmente em razão da interação entre a guitarra e o teclado. Com um viés surpreendentemente motivacional diante de um contexto que prega a superação, a faixa acaba garantindo para si um grau de receptividade maior para com o ouvinte.
Mais bruta, áspera e com uma pitada audaciosa de agressividade, a canção não traz a voz feminina como aquele fator primeiro a puxar os versos líricos. Em verdade, nesse novo contexto, é um timbre masculino que surge em meio a um rugido rasgado que se rsponsabiliza por essa atividade, tornando-a sombria e, portanto, obscura com algumas pitadas de asco. Agraciada por uma guitarra adornada por uma distorção grave, Beautiful Disaster pode ser mais bruta e até mesmo violenta, mas ela caminha por uma base harmônica linear que só não incomoda por conta da cadência lírica posteriormente assumida pelos dois vocalistas. A partir dela é que a obra escancara a sua natureza sensual e de um romantismo perigoso.
Diante de uma introspecção solitária, dramática e com um quê de melancolia reflexiva, a canção passa a ideia de se configurar como uma obra sofrida e pegajosa em meio ao seu veludo lacrimal, mas o que acontece é o surgimento do impulso, do intenso e de um aspecto de basta. A partir de trotes densos efetuados pela bateria, o chimbal assume uma postura suja enquanto a guitarra transpira riffs de um grave inquietante. Assumindo um viés dramático de traços viscerais, Burn The Silence leva o ouvinte para um refrão em que a cantora oferece uma ampla exploração de sua extensão vocal ao atingir notas ainda mais agudas como forma de exaltar o seu comportamento de angústia.
Sombria e pujante desde o seu primeiro sinal sonoro, a faixa se apoia nos pulsos sequenciais ofertados pelo bumbo até eclodir em um instrumental sentimental especialmente em razão daperformance da guitarra. Entre suspiros e uma ideia de elevação e uma espécie de ressurreição, Nothing Left To Fear, além de tratar do estado manipulador da sombra, ela, em meio a bases de protagonismo maciço do teclado, traz consigo um intuito de educar o ouvinte a enfrentar os seus próprios medos e as suas próprias inseguranças para atingir um estado de autoconfiança suficiente para enfrentar a imprevisibilidade da vida.
Não é que ela seja soturna, ainda que o tom grave da guitarra possa sugerir isso. Contudo, ao se unir aos pulsos secos e curtos da bateria, o instrumento coopera com a construção de um ambiente rítmico-melódico que exala um toque cheio de cinismo com uma breve inclinação para com o sorrateiro. Alcançando um patamar de extrema sensualidade a partir da interação entre os solfejos e os gritos tremulantes que a guitarra exibe com o auxílio da distorção, The Last Match é a primeira canção do álbum a apresentar sinais da presença do baixo no desenho sonoro em razão da percepção de uma densidade diferenciada no desenrolar melódico ocultista. Harmonicamente linear, a faixa é aquela que fornece um formato denotativamente radiofônico em razão de seus versos introspectivos que desencadeiam em um refrão amplo, expansivo, provocante e sensual que leva para uma segunda metade com lirismo formatado como um dueto.
Ao se deparar com Ashes & Shadows o ouvinte se percebe em meio a um cenário cheio de estímulos. Por mais que a estética de cada composição sugira de imediato o sombrio com traços de uma aspereza que se contrapõe aos lapsos de torpor, o disco se configura como um material de essência curiosamente motivacional que se utiliza de texturas das mais variadas para alcançar o seu grau de penetração, contágio e intrigabilidade.
Com direito ao épico, mas também ao soturno, ao pegajoso, ao dramático, ao sorrateiro e até mesmo ao sensual, o disco é uma coletânea de 10 composições em que a guitarra brilha ao seu máximo, mas não de forma egoísta. Afinal, a dupla de vozes que se divide entre determinadas faixas auxilia até mesmo na obtenção de um dinamismo lírico-interpretativo que chega a barrar o incômodo de ocasiões em que a harmonia se apresenta linear.
Indiscutivelmente construído com base na assistência da inteligência artificial, algo que pode ser notado na ausência de respiração natural no escopo lírico, mas também nos sinais de intensa estática no corpo melódico, o disco traz as suas seis primeiras faixas como aquelas que destacam com mais fervor a sua própria identidade épico-hard rock. Mas Ashes & Shadows é, em sua totalidade, um produto que explora conflitos internos, relacionamentos complicados, perda, arrependimento e determinação.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/7L55sF0jK54BZtAU3ObAac




