Um som de caráter amaciado, mas ao mesmo tempo áspero, se mantém no domínio da esfera melódica ao mesmo tempo em que um toque tiquetateante é percebido na dianteira sonora quase como se fosse capaz de sugerir os primeiros vislumbres da cadência rítmica. O curioso é perceber que esse mesmo som acaba sendo um elemento responsável por puxar uma tomada sintética crescente que ambienta o ouvinte em uma espécie de cenografia crepuscular nascente. Introspectiva e de brias oníricas, a faixa se beneficia de sua esfera dramatúrgica teatral que se apresenta por entre rompantes de um hipnótico entorpecente. Em Intro, Oscar, com seu timbre agudo e adocicado envolto em falsetes muito bem executados, faz com que o ouvinte caminhe entre generosas doses de estridência transpiradas pelo solo de guitarra e pela maciez letárgica que domina a energia presente em seu contexto.
Um som agudo e crescente coloca o ouvinte perante uma nuance sensorial, no mínimo, intrigante. Ainda que traga consigo inclinações que sugerem o onírico, a faixa acaba trazendo, durante a segunda etapa da sua introdução, uma interação interessante entre as texturas borbulantes que fornecem o torpor e a aspereza que induz a consciência. Mesmo com um timbre grave dominando a base melódica, o torpor é, definitivamente, a sensação que domina a atmosfera da obra, a qual, surpreendentemente, é agraciada por um lirismo vivido sobre a cadência sincopada do rap. Traduzindo, pelas susas próprias palavras idiomatizadas em espanhol, a angústia, o desespero e a agonia, o cantor faz da faixa-título um material que mistura a decepção, a frustração e um grito de socorro que busca a luz ante as sombras do próprio caos interior.
É como se, de uma maneira bastante sábia, Oscar oferecesse uma espécie de oásis de calmaria depois de transitar pela fissura de seu próprio caos. Afinal, el tiempo y su paso traz consigo uma estrutura rítmico-melódica que explora, ao mesmo tempo, a leveza e a sensualidade com direito a pitadas de frescor. Introspectiva e brisante mesmo diante dos batuques opacos dos elementos percussivos presentes, a faixa, assim como a anterior, traz o escopo lírico pautado no rap. Aqui, porém, a delicadeza toma conta da desenvoltura verbal, fazendo com que a sutileza e um toque reflexivo ganhem as percepções sensoriais do ouvinte.
Enquanto o sintetizador cria uma sonoridade doce, fresca e valsante que, inevitável e invariavelmente convidam o ouvinte ao torpor, existe um sonar levemente áspero proferido pelo brando ricochetear do prato de ataque. Ganhando uma vivacidade curiosamente amaciada e de nuances aconchegantes a partir da desenvoltura dos instrumentos de sopro, a composição mantém seu intimismo a partir do dulçor aveludado da flauta que permeia o âmbito harmônico e o caráter sincopado da bateria que denuncia a sua base jazz. Dinâmica, mas vulnerável, las delicias del no ser chama a atenção pela simetria sincopada e cadenciada existente entre o escopo lírico e a desenvoltura do baixo.
Marcado pelo intimismo, o álbum convida o ouvinte a mergulhar pelos campos mais profundos não apenas da psique humana, mas pelos ambientes do indivíduo em que se escondem as mais densas vulnerabilidades. Com antidepresivos, Oscar disseca o seu próprio ser na busca de um ato de autoconhecimento corajoso em prol do entendimento das suas próprias fraquezas e no alcance das respostas às suas próprias questões.
Bem trabalhado no que tange ao aspecto sonoro, o disco se destaca por fundir classicismo requintado com um charme misto de vanguarda e retrô que combina jazz e rap em um ambiente em que os faz atingir uma harmonia surpreendente. Com a beleza do passado e o modernismo expressivo do presente, o disco pode até trazer as suas quatro primeiras faixas como aquelas em que esses apontamentos são percebidos com mais evidência, mas ele é, como um todo, um produto de coragem e sabedoria ao falar sobre a vida, a morte, o tempo, a existência e o que significa estar vivo.
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