A primeira coisa que temos que ter em mente quando ouvimos um trabalho como este, é que não há uma veia comercial que o mova. Afinal de contas, estamos diante de algo que une o experimental e o instrumental, quesitos que não cabem nem com ameaças ao meio de massa.
Por isso, o leitor que não consegue discernir essa diferença, encontrará ainda mais dificuldade pra compreender que “Impure Imagination”, mais novo disco do Pointless Beauty, é um trabalho musical que enriquece a sonoridade, agrega muito à progressão da música e ainda traz sofisticação para que sua apreciação seja uma verdadeira viagem.
Mas, antes de destila-lo, apresentemos um pouco de tudo que está por traz deste peculiar disco. O Pointless Beauty é o projeto de longa data de Al Swainger — baixista, compositor, produtor e multi-instrumentista radicado em Bristol. O baixista, compositor, produtor e multi-instrumentista apresenta a declaração mais pessoal e socialmente consciente de seu projeto de longa data, Pointless Beauty.
Combinando fusion cinematográfica, jazz progressivo, texturas eletrônicas e improvisação coletiva, o álbum explora questões de identidade, agência e pertencimento. Terceiro álbum do Pointless Beauty, o disco reflete um aprofundamento das preocupações centrais do projeto: como a música pode acolher a incerteza, a honestidade emocional e a interação coletiva sem forçar respostas simples.
Já dá pra se notar, que o intuito do disco, que traz 11 faixas, é agregar, tanto para quem o compôs e o toca, quanto para quem ouve. E o sistema inicial de composição do trabalho, é simplesmente incrível.
Muitas das composições começaram como peças curtas escritas para os assinantes de Swainger no Bandcamp, antes de serem expandidas para obras maiores. Frequentemente originadas como demos eletrônicas, elas foram posteriormente remodeladas para colaboração e interação ao vivo. Ou seja, é um disco que já conta com a participação indireta de muitos dos fãs que acompanham o projeto.
O disco, apesar de instrumental, traz um conceito interessante, do qual Al deixa bem claro. Muitas das faixas examinam, sob diferentes ângulos, a promessa e o perigo de sistemas invisíveis que geram consequências no mundo real. Onde e como somos incentivados ou autorizados a nos expressar? Quem fala por nós quando nossa autonomia é retirada? O que acontece com a nossa humanidade quando depositamos confiança excessiva em processos automatizados?
Muitas vezes, nossas vidas são moldadas por um caos aparente. Às vezes, isso significa luto, perda e instabilidade. Outras vezes, traz alegria, compreensão e libertação. A fragilidade e a imperfeição parecem fundamentais para a nossa humanidade, e sinto-me atraído por aquilo que resiste a ser suavizado ou padronizado.
Numa cultura que prioriza a velocidade, a repetibilidade e o reconhecimento imediato, ainda há valor na paciência, na imperfeição e na surpresa. Isto é, o trabalho contesta, de alguma forma, o modo atual de se consumir música, que inclusive dispensa estes formatos.
Pois bem, o disco abre com uma introdução misteriosa chamada “The Paper House”, que ao mesmo tempo é uma peça bonita e eufórica de piano. Logo, a faixa seguinte, que induz o ouvinte de vez e se chama “The Wheel”, soa como um resumo do trabalho, que entrega contextos híbridos e o jazz de fundo em um épico que mostra a identidade não definida do projeto.
“Seeding”, com sua produção vintage emulando o som de vinil, soa mais convencional, com os instrumentos básicos e consistência na execução, enquanto “Pacing The Web” é aquela composição que gera curiosidade e traz contextos diferenciados.
“We’re Only Haunted”, conduzido por um piano espetacular, traz um jazz instrumental como o disco pede, paciente e muito bem executado, que encanta. Já “Out of Time” é aquele tipo de composição que mantém a essência, inspirada pelo jazz, mas com um besunte psicodélico que deixa tudo mais interessante.
Enquanto isso, “What the Fire Forgot” é um jazz erudito que revela uma guitarra e cozinha estonteantes, com timbres magistrais. Já, “I Wish (Upon a Disused Star)”, a primeira faixa com voz, mas não exatamente cantada, chega como um aspecto moderno do disco, inclusive com uma base grooveada.
“Who // Are // We” chega com uma batida cativante e uma mescla magistral, com metais se envolvendo a um piano discreto, mas fundamental, além de um leve toque excêntrico, que diferencia a faixa de tudo.
Com um teor mais obscuro e cinematográfico, que parece anunciar o fim do disco, já que estamos na penúltima faixa, “Fractured Grace” chega como um interlúdio cativante, que antecede a não menos enigmática “On Borrowed Dreams”, um épico de 9 minutos que encanta pela mescla de elementos, indo do jazz tradicional, de um sintetizadores espacial, todo climático ao fundo e um contexto levemente moderno que deixa a composição cinematográfica. Uma verdadeira viagem sonora que é a cereja do bolo do disco.
A música apresenta vozes, não exatamente cantadas, mas consegue passar a mensagem e ainda fechar tudo com chave de ouro. Mais um acerto do projeto Pointless Beauty, que encanta a cada lançamento.
https://www.facebook.com/groups/pointlessbeautycommunion
https://twitter.com/alswainger
https://open.spotify.com/artist/6qsraySwweLeDipWWwoiNw
https://soundcloud.com/alswainger




