A música instrumental é algo complexo, tanto para o músico, quanto para o público. Logo, quem se arrisca a praticá-la tem que redobrar, pois ela tem um fio condutor a menos, sendo este fio o principal, que é o canto. Logo, se não soar espetacular, raramente irá atender as expectativas até mesmo de um público que compreende melhor este aspecto.
O projeto WORLD-ENDING FIRE é fruto da colaboração entre o guitarrista e produtor canadense Paul MacLean e o baterista sueco Tony Lind, realizada em uma floresta nos arredores de Uppsala, na Suécia. Gravando no ambiente intimista de uma cabana isolada, eles adotaram uma abordagem intuitiva: sentados juntos em uma sala pequena, trocando olhares e permitindo que a música surgisse organicamente. Tudo isso apenas em instrumental.
Essa metodologia despojada resulta em algo genuinamente singular, onde o trabalho de guitarra e a visão de produção de MacLean se entrelaçam harmoniosamente com a potência percussiva de Lind. Inspirando-se nos escritos filosóficos de Wendell Berry e nas pinturas místicas de Hilma af Klint, eles lançam um disco autointitulado, que corrobora com todo método e conhecimento dentro de diversos gêneros.
“WORLD-ENDING FIRE”, o disco, canaliza diversas influências artísticas para criar uma experiência sonora coesa que transcende as fronteiras convencionais dos gêneros musicais. Fica nítido o quanto o duo sabe da importância de prender os ouvintes, onde as seis músicas do disco entregam elementos que vão desde a música ambiente, passando pelo progressivo, post-rock, até uma concepção cinematográfica, que deixa tudo mais compreensível de fácil digestão.
“WORLD-ENDING FIRE” é o disco de estreia do duo e confronta diretamente o peso da existência contemporânea. Nascido de reflexões sobre conflitos globais, destruição ambiental, perdas pessoais e a experiência transformadora da paternidade recente, o álbum transforma a escuridão em luz criativa por meio de um compromisso inabalável com a intuição.
O debut ainda traz uma equipe de peso em sua produção, o que deixa tudo ainda mais bem lapidado, dando ainda mais qualidade e compreensão ao disco. Mixado pelo renomado produtor Daniel Bergstrand no SDFX Studio (conhecido por seu trabalho com o Meshuggah), o álbum equilibra uma honestidade emocional crua com um trabalho de produção sonora de alta qualidade.
MacLean descreve o processo criativo como “uma reflexão sobre o absurdo/constrangimento de viver na sociedade moderna”; no entanto, nessa constatação reside uma esperança genuína — encontrada no próprio ato de criar e na coragem de seguir os instintos, apesar dos tempos incertos. Tudo em apenas seis longas faixas que totalizam quase 38 minutos.
O disco abre com “Fear (and no foretelling)”, uma faixa inicialmente misteriosa, toda climática e soturna, que assim que ganha os contextos da seção rítmica, nos revela um post-rock cativante e consistente, servindo muito bem como uma introdução à viagem que nos oferecem.
Ainda mantendo a inspiração na música ambiente, a épica de mais de 9 minutos, “A Smoke Column Rises Near Shining Bank AB (for CrazyChris)” traz um contexto de reflexão, onde, após uma introdução burocrática dos teclados, ganha um dedilhado de guitarra melancólico e uma cozinha que vibra com lentas pulsações, o que mexe com a alma de quem a ouve.
A não menos extensa “Poem on Hope” chega com um advento mais otimista, mas ainda cheia de introspecção. A faixa prima por trazer um fundo mais eufórico, orquestrado, que brilha, porém não intensamente, o que mantém a característica sombria das composições.
E por falar em sombrio, “the poisoned river–the mountain cast into the valley” chega co ruídos de ventos e industriais, além de um discurso de fundo, parecendo realmente um interlúdio que abra a segunda e derradeira metade do disco, com leves toques dark e psicodélico.
Não à toa a faixa mais objetiva do disco, “Those Who Had Wanted To Go Home (would never get there now)” soa um tanto mais agressiva e inclinada ao post-rock industrial, com um trabalho consistente de sintetizadores, nos leva ao caminho doom que a banda apresenta na faixa seguinte.
Sim, a composição acaba sendo uma ponte para “Day-blind stars (waiting with their light)”, que se mostra a faixa mais doom do disco, o que pode invadir o coração das almas mais entristecidas. A faixa traz todo o contexto de um som como esse, inclusive influências do post-rock, com direito a andamento cadenciado, elementos progressivos, guitarras de fraseados básicos e um fundo atmosférico que arranca suspiro, além da inclusão de discursos vocais que parecem convocar para o desespero do fim do mundo.
Várias conclusões podem ser feitas com o debut de estreia do WORLD-ENDING FIRE, disco autointitulado. Primeiramente que é um trabalho instrumental que consegue cativar e ainda passar a mensagem que a proposta entrega. Segundo que é um disco de músicas sem amarras, com diversos elementos de outros estilos. E, por último, estamos diante de um trabalho que pode agradar a diversos públicos, mas principalmente os de alma mais sombria.
https://worldendingfire.bandcamp.com/album/world-ending-fire




