Across the Ocean towards a Higher Firmament | Norueguês Ståle Kleiberg lança novo álbum orquestral

A canção se inicia com direito a um contexto sonoro intrigante. Não existe, necessariamente, uma melodia agradável e suave pairando pelo ar. Na verdade, a serenidade e o veludo outrora esperados pelo violino entram em cena a partir de uma desenvoltura funda e distante que, gradativamente, assume uma guinada crescente com direito a nuances tremulantes. E justamente a partir dessas pronúncias trêmulas é que se percebe notas de uma tristeza instancável. As lágrimas escorrem, mas não de forma ácida ou corrosiva, mas, sim, com boas conotações de um lamento dolorido associado à decepção. É como se o pesar encontrasse o meio ideal de escorrer, de extravasar, de implodir toda a dor presa em um peito congestionado de lamúria. Capaz de trazer uma espécie de fusão estético-estrutural beethoviana e chopiniana, o drama é o norte declarado do conteúdo que molda Lamento – Cissi Klein in memoriam, a primeira e mais longa composição do álbum. Com direito a instantes instrumentais que sugerem o caos e outros que induzem ao torpor, o que acontece ao comando clarinete, a faixa transita entre o onírico e o tormento consciente com uma desenvoltura surpreendente. De certa forma, é como se a composição tomasse uma engrenagem que sai do soturno e busca desesperadamente por feixes de luz que suscitem em algum tipo de redenção necessária e angustiantemente buscada.

Diferente do que se observou na composição anterior, aqui o ouvinte entra em contato com um instrumental harmonioso, aveludado, aconchegante e marcado por bons sinais de fluidez estético-estrutural. Doce e amena em sua essência, a canção, além de propor, permite que alguns instrumentos de sopro conversem sintonicamente com as valsas mansas dos elementos de corda friccionada. Intimista, mas livre de drama ou pungência, é curioso perceber que a obra faz com que o ouvinte se sinta diante de uma paisagem noturna urbana vibrante e cheia de vida. E essa ideia se sustenta com momentos crescentes em que os pratos explodem e os detalhes de corda trazem consigo uma sonoridade mais aberta, dançante e até mesmo sorridente. Altiva, portanto, The Town And Its People caminha por entre minimalismos e rompantes extravagantes que traduz, em som, a pluralidade social de importantes centros urbanos.

O eruditismo enfim enconta o seu momento mais solene. Não em relação ou em razão do aspecto relacionado à grandiosidade, mas por conta da maneira com que cada conjunto instrumental é trabalhado. Mansa, fresca e frágil no sentido mais estrito do caráter de vulnerabilidade, a faixa parece focar na serenidade dos elementos de corda como um meio de se chegar ao coração do espectador. Sem apelação, hipnotismo ou exploração de superfícies que chocam, a presente composição se envereda pelo conforto, mas com direito a pequenas sugestões de um torpor associado à nostalgia. Fluida e tão suave como um tecido de veludo acalentando a pele durante um sono profundo, Across the Ocean towards a Higher Firmament – Symphony No. 3 : I. Espressivo e rubato. Andante se destaca por, ainda mais que a faixa de abertura, trazer influências diretas de Chopin em razão do uso do rubato e de suas transições de calmaria para ligeiras noções de aceleração estrutural, mas sem roubar a natureza pura de leveza e delicadeza.

Aqui existe uma questão interessante. Não é a valsa que propõe o nascimento da obra em questão, mas uma agudez equilibradamente açucarada com nuances de veludo. Pronunciadas pelo que parece ser o clarinete, essas notas fazem com que o ouvinte se deleite em meio a um ecossistema que sugere, com a devida curiosidade, o folclórico. E dentro desse universo, o ouvinte mais atento consegue identificar traços de um caos que tempera a serenidade com pitadas de um sentimentalismo rompante que cria um interessante contraponto com o seu próprio aspecto de suavidade estética. Isso é obervado especialmente nos momentos em que os instrumentos de sopro surgem como elementos responsáveis não por preludiar o caos, mas por indicar a devida chegada de uma virada teatral profunda, com direito a cenas de embate direto entre o vilão e o bonzinho do enredo. Across the Ocean towards a Higher Firmament – Symphony No. 3 : II. Tranquillo. Drammatico. Misterioso, com as suas quebras e os seus momentos teatrais marcantes, leva o ouvinte direto ao encontro do tenso, do denso e do surpreendente. Como um predador em meio aos arbustos, essa é uma canção que caminha à espreita e que, de fato, desfere uma série de golpes que tiram o ouvinte do torpor no susto.

O ritmo muda. A textura muda. E a postura muda de forma igualitária. Trazida à vida por meio de instrumentos de sopro de nuances opacas e gordas, a canção permite que o espectador entre em um ligeiro estado entorpecente que por vezes é rompido por inclinações de um mistério intrigante sugerido pelos aerofones presentes diante de tal contexto. Com traços de um interessante toque épico disneyresco, a canção cresce até o pico de suas notas para depois escorregar para o ponto de partida. Como uma espécie de instrução de injeção de adrenalina propositadamente não correspondida, Across the Ocean towards a Higher Firmament – Symphony No. 3 : III. Maestoso. Quasi corale, apesar de ser a composição mais curta em duração de todo o material, com seus meros oito minutos, apresenta momentos que merecem atenção. Com o grave ecoante do tímpano entregando instantes de pressão junto a uma combinação de frases sonoras graves, a faixa acaba se valendo pela sua maciez estrutural, que é capaz de roubar os sentidos do espectador, mas não a sua noção do conforto.

Com o auxílio da Orquestra Sinfônica de Trondheim, o que Ståle Kleiberg oferece com Across the Ocean towards a Higher Firmament não é apenas uma coleção de cinco composições eruditas. De forma direta, o disco apresenta influências do velho mundo com influências modernas, mas sem perder o que há de nobre no classicismo: a profundidade emocional.

Passando pelo drama, pelo suspense, pelo mistério e até mesmo pelo transcendental, o disco oferece instantes de alegrias coloridas e recriações de ecossistemas vibrantes que conduzem à ideia de uma vida noturna bastante ativa e típica de grandes centros urbanos. Com direito a até mesmo nuances folclóricas a partir da condução de Peter Szilvay, Across the Ocean towards a Higher Firmament é um álbum que, acima de tudo, explora as temáticas de pesar, de identidade e de pertencimento ao se inspirar na migração norueguesa à América do Norte.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/0wZ2dhAvHbqrty16AG8BNY

Site Oficial: https://www.stalekleiberg.no/

Instagram: https://www.instagram.com/kleibergstale

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