Não existe contestação possível de ser feita em relação à temática que a obra transpira desde o seu primeiro instante. Ainda que roube os sentidos do ouvinte com uma base harmoniosamente valsante e fresca, a faixa é respaldada por uma inicial frase rítmica cujo repicado ecoante na superfície levemente estridente da caixa da bateria induz o ouvinte a entender o reggae como a sua base estrutural. Rapidamente, um vislumbre lírico é percebido em meio a um movimento melismático entoado por uma voz masculina de entonação afinada em meio a um aspecto tonal intermediário. Enquanto a guitarra ecoa a sua agudez e o baixo se pronuncia por meio de pulsos de corpo equilibrado na base melódica, a bateria enfim explode sua frase rítmica precisa, firme e fluida em meio a uma cadência de inclinações sensuais. De viés contemplativo ao mesmo tempo em que se beneficia da obtenção de estímulos dançantes, a faixa destaca um vocalista de timbre aberto cuja dicção realça a identidade exata de uma pronúncia inglesa vinda de uma boca jamaicana. Penetrante e emocionalmente profunda, I Guess You Want It This Way (Cinematic Reggae) 1** ainda conta com backing vocals que deixam a sua base lírica com um teor contemplativo intenso.
Diferente daquilo que foi observado durante a canção anterior, a nova composição explora, desde o seu primeiro sinal sonoro, uma tomada sensorial que extravasa a simples contemplação e atinge um viés transcendental cujo torpor só é brevemente barrado pelos dedilhares delicadamente trepidantes da guitarra. Emitindo um som agudo, mas que não interfere na proposta imersiva em andamento, o instrumento é apenas um realçador de sabor, que se omite para dar vazão à tonalidade agudo-valsante do violino na dianteira harmônica. Inclusive, esse é o elemento instrumental, mesmo que introduzido de forma sintética, que carrega toda a essência cinemática dessa nova versão de I Guess You Want It This Way. De sonoridade mais limpa e com uma tonalidade mais cristalina, a presente faixa acaba escorregando propositadamente no estímulo do drama enquanto avança em meio à sua própria desenvoltura. Com um viés mais imersivo, I Guess You Want It This Way Cinematic Reggae) 2 explora uma espécie de torpor diretamente associado a um senso de gratidão.
Indo na completa contramão das paisagens oferecidas diante das duas canções anteriores, o que a presente obra oferece não é apenas a limpidez, mas a completa pureza da originalidade estético-estrutural de I Guess You Want It This Way. Trazendo a guitarra como elemento introdutório onde antes era um violino sintético, I Guess You Want It This Way 1, portanto, ganha um tom orgânico de delicadeza e um swing naturalmente mais palpável. Mantendo a lente sincopada e precisa do ritmo, fator que carrega a essência do reggae, a canção traz um teclado que tenta imitar a vibrância e a vivacidade de alguns instrumentos de metal de forma a amplificar, da maneira devida, o espectro harmônico. Ainda assim, especialmente nos versos de ar, o teclado exerce uma função primordial na separação dos tempos rítmicos com seus pulsos adocicados que exaltam, inclusive, a corpulência dos dedilhares groovados do baixo na base melódica.
Com um tom acima, seja na percussão ou na própria desenvoltura da guitarra, esse é o principal diferencial entre I Guess You Want It This Way 1 e I Guess You Want It This Way 2. Em relação à segunda versão, o ouvinte se depara com uma sonoridade ainda mais nítida a ponto de até beirar certos resquícios de estridência em razão da nova camada de limpeza feita pela mixagem. Entre sobreposições sonoras vindas do teclado, as quais entregam mais peso ao swing desempenhado pela guitarra, a nova roupagem apresenta, como originalidade, a forma como constrói a sua própria finalização, com uma sequencialidade instrumental que se censura com o ecoar do riff da guitarra.
Mais hipnótica em razão de um tom mais fanhoso em relação ao riff da guitarra, a canção fornece um timbre de trompete sintetizado que usa o timbre áspero e agudo como forma de providenciar uma textura que minimiza o estado de torpor difundido até então. Com ligeiras mudanças na melodia engendrada pela guitarra, o que favorece um senso de movimento inédito, a canção ainda se vangloria pela aquisição de uma sensualidade mais envolvente. Entre o imersivo e um protagonismo notável do baixo, o que coopera com o alcance de uma densidade sonora mais elevada, I Guess You Want It This Way (Reggae 2)*** explora I Guess You Want It This Way a um nível puramente instrumental.
Sensual, fresca e sem mudar a identidade da melodia propagada até aqui, a presente roupagem traz uma emulação de metais na introdução que sugere estridência e uma nuance vivaz que se contrapõe ao swing entorpecente na segunda metade nascente. Como uma nova versão instrumental em relação àquela fornecida em I Guess You Want It This Way (Reggae 2)***, I Guess You Want It This Way (Reggae Dub (1), como o próprio nome sugere, traz o dub como a sua base estrutural.
Explorando I Guess You Want It This Way ao seu máximo, o que C’batch entrega com o EP homônimo é uma miscelânea de roupagens que oferece ambientes sonoros como reggae, dub, instrumental e cinemático. A partir delas, o ouvinte pode se aprofundar em cada camada existente dentro da estrutura dessa música que destaca e traduz a essência do universo reggae ao mesmo tempo em que funciona como uma homenagem ao guitarrista jamaicano Ernest Ranglin.
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