Liberdade criativa na música muitas vezes pode ser confundida com algumas coisas. A principal dela é a desconexão e o experimentalismo que não leva a nada, ou seja, com algum tipo de resultado negativo, que camufla a falta de talento e coloca o artista em check, tanto diante do público, quanto do próprio cenário.
Logo, quanto vemos que um artista prioriza esse tipo de liberdade, temos que observar onde ele quer chegar. É o caso que temos aqui e, ainda bem, conseguimos entender sua proposta e ela não cai nessa armadilha sonora experimental, do qual muitos têm sido vítimas nesse cenário criativo.
Nascida na antiga cidade de Kyoto, no Japão, e atualmente radicada em Oslo, na Noruega, Sienná cria uma música eletrônica que se destaca por uma fusão intercultural distinta, frequentemente descrita como um som que une Oriente e Ocidente. Ela evita ativamente tendências musicais de imitação. Suas paisagens sonoras de vanguarda mesclam elementos de música experimental, house, jazz, música clássica e música japonesa tradicional e contemporânea.
Ela aborda a produção eletrônica com uma mentalidade de “ausência de regras”, priorizando a liberdade criativa e a exploração sonora que desafia rótulos de gênero, em vez de seguir modelos estruturais rígidos. Mas, ao mesmo tempo, não se preocupa se cai em algum lugar comum, o que deixa seu som natural.
Ao longo de uma carreira de mais de uma década com turnês pela Europa e Ásia, ela colaborou com diversos pioneiros de destaque da vanguarda, como Nils Petter Molvær, Mick Karn e The Crazy World of Arthur Brown.
Ela chega agora com o grande sucessor de seu álbum conceitual de 2023, ‘Wa-Kei-Sei-Jyaku’, que representa o auge de sua proposta intercultural, o disco “EMA”. Trata-se de uma coleção de 9 sínteses de imagem em som, concebidas por ela em meio à natureza. O trabalho leva sua abordagem de gêneros híbridos a novos territórios.
O disco com 9 faixas não tem medo de transitar por territórios estranhos, porém também não deixa de desbravá-lo, revelando uma característica ousada e encontrando em seu cerne uma personalidade que corrobora muito com a proposta inicial. Tudo em menos de 45 minutos.
A faixa de abertura, “Be A Seeker, Believer” tem uma batida intrigante, espaçada e que colide com um fundo tribal interessante. Enquanto isso as harmonias nos remetem à new age, com trabalhos de vocalização inertes, mostrando que ela sabe criar aspectos próprios e com sentido, como manda o figurino.
“Your Fact, My Fact” nos traz um pouco mais de descontração. Com uma levada bem sacada e graves que trazem um groove dinâmico, a faixa lembra as inserções oitentistas do pop com o hip-hop, incluindo trazendo um trabalho vocal falado e versátil, sem letra consistente, mas com todo sentido.
“Ema”, a faixa título, é a primeira que revela a origem oriental de Sienná. Com um trabalho harmônico e atmosférico, a música dispensa o trabalho percussivo e traz como condutor de melodia elementos da música oriental, nos remetendo ao ‘fue’, um flauta tradicional japonesa.
A melancolia em doses homeopáticas chega em “Aenaria”, uma faixa que entrega um piano como base principal e a primeira que traz vocais mais consistentes, ocupando maior espaço na composição. A faixa traz transições interessantes e o que chama atenção é seu forte teor cinematográfico e a capacidade de encantar.
E para quem achava que Sienná não iria incluir rock em seu repertório, eis que surge “369 (Miroku)” uma composição de timbres orgânicos em sua batida, trazendo guitarras industriais na base e um teor levemente caótico, nos remetendo ao eletrorock e rock industrial. Tudo feito com conhecimento de causa e sem perder a identidade.
“Finding Inner Sanctuary” chega com elementos que nos remetem a sons tubulares, soando na veia experimental do disco, mas ganhando consistência quanto mais a gente a ouve. É aquele tipo de faixa que mostra a liberdade criativa realmente em prol da criatividade da artista.
Entrando na reta final, Sienná apresenta “The Majestic”, mais uma faixa épica, porém um tanto quanto progressiva. A música se mostra em um ponto que começa de forma tímida com leves camadas que aumentam gradativamente e encarna mais uma vez um contexto cinematográfico.
“A Messenger” é outra faixa que entra naquele contexto do eletrônico descontraído dos anos 80, dessa vez cativante pelo ritmo dinâmico e mexendo com a mente, já que é uma faixa que parece nos transportar para uma pista de dança ‘exótica’ daquele período, sem que saiamos do lugar.
“Ema” termina com a emblemática e enigmática faixa “From Here to Where You Are”, que traz um pouco de introspecção ao trabalho, mas consegue dimensionar o álbum todo que é um grande feito. Na verdade, quando acabamos de ouvir o disco, notamos o quanto o trabalho nos remete a um filme, que nos transportou pra dentro dos fones (ou caixas de som) e nos desligou por um tempo do mundo real. Um primor!
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