Massimo Donelli e Paolo Rossi unem forças em Adorati Spiriti, álbum conceitual que explora a história dos nativos americanos

Não existe outra maneira de descrever a canção sem dar ênfase à sua atmosfera nativa e natural. Construída a partir de um canto que suscita a imersão em uma tribo indígena, ela traz consigo um ar de suspense denso e com conotações folclóricas intensas principalmente em razão dos instrumentos utilizados para a sua elaboração. Com destaque para os elementos percussivos que auxiliam ativamente na obtenção de pressão e densidade estruturais, Nelle orme il canto ainda se destaca por surpreender o ouvinte e apresentar aparições de uma guitarra que rasga a atmosfera inebriante com a sua distorção áspera diretamente associada aos repiques rítmicos que sugerem um toque positivo de dinamismo. Ao mesmo tempo, é importante destacvar a presença de sons sintéticos que imitam a performance de determinados metais para angariar uma melhor base harmônica. Agora, se o assunto for o caráter épico, ele pode muito bem ser identificado a partir das frases líricas onomatopeicas pronunciadas tanto por uma voz masculina em um primeiro plano quanto pelos backing vocals que entoam seus versos em tons de ordem que reforçam os balbuciar do cantor principal.

O piar agudo de um pássaro ecoa livremente pelos cânions inóspitos de forma a destacar uma natureza completamente imersa no contexto da máxima solitude. Explorando um intimismo sem muita brexa para a dramaticidade, a canção começa a ganhar movimento e menções suaves de sensualidade a partir de alguns repiques percussivos que aderem uma textura levemente crocante ao cenário em desenvolvimento. Curiosamente, ao contrário do que foi observado na canção anterior, Il cerchio che unisce se aventura por meio de uma delicadeza estético-estrutural suave e contagiante. Percussivamente macia e envolvente, a faixa é agraciada por versos líricos bem formados e maduros que se constroem a partir da idiomática italiana, fator que, além de oferecer autenticidade ao material, faz com que tal senso de identidade seja responsável por cooperar ativamente com o senso de movimento orgânico.

O sombrio, o denso e o tenso são fatores sensoriais que não pedem licença. Eles invadem o cenário ao primeiro sinal do desenvolvimento sonoro a partir do sintetizador. Quase como se pudesse dar profundidade ao bruto, esse vislumbre sintético ganha um ímpeto contemplativo a partir do sopro agudo da flauta, fator que, inclusive, induz o ouvinte a perceber uma silhueta maciçamente folkeada no entorno do aspecto rítmico-melódico. Introspectiva na forma de uma cantiga de corpo melancólico-contemplativo, Ovunque surpreende por alcançar um momento em que a maciez faz com que a sensualidade acabe, consequentemente, se apresentando como um importante fator sensorial. Com direito a um violão de natureza curiosamente swingada, a composição destaca uma interação lírico-melódica fresca e contagiante que combina o transcendental com o veludo diante de uma narrativa fluida e organicamente envolvente.

Enquanto as linhas líricas retomam o seu formato onomatopeico e balbuciante estacionado em Nelle orme il canto, os instrumentos percussivos tornam a paisagem nascente da presente obra empolgante, marcante, precisa e potente. Com protagonismo do sintetizador na base melódica de forma a ressaltar a existência de um viés atmosférico penetrante, a canção destaca os burburinhos agudos, doces e pipocantes da flauta de pã como elemento de destaque na cenografia sônica em exercício. Surpreendo por inserir a guitarra elétrica e a bateria em meio aos seus pulsos regados a golpes de bumbos duplos, Danza Su Danza explora uma postura empoderada cheia de força e potência que a torna não apenas estimulante, mas principalmente excitante. 

A flauta pode até surgir com um ímpeto naturalmente introspectivo, mas ela rapidamente transforma a sua desenvoltura em algo altivo e rebolante que entrega um movimento bastante acentuado no contexto sônico em evidência. E o interessante é que não tarda para a guitarra elétrica exigir o seu posto na conjuntura melódica e seguir simetricamente os mesmos passos sonoros do instrumento de sopro. O interessante, porém, é observar a existência de um equilíbrio sensorial diante dessa canção, pois após o brilho da flauta e o choque ardiloso da distorção da guitarra, nuances harpianas sugerem um instante de breve introspecção transcendental que destaca a delicadeza na sua forma mais frágil. Envolvente, contagiante e fluida especialmente pela presença das valsas adocicadamente aveludadas do violino, Mitena (nata sotto la Luna nuova) se destaca como a canção instrumentalmente mais completa de todo o disco.

Entre a track list de nove títulos que contempla a totalidade do álbum, Il Tramite é outro que merece igual atenção. De início sombrio acompanhado de nuances sinteticamente guturais, a faixa soa como um eco cavernoso proclamado por uma voz masculina excessivamente grave e respaldada por uma base minimamente áspera. Evoluindo de forma a evidenciar a sua fluidez estética-estrutural e seu lirismo onomatopeico, a faixa amadurece no momento em que o lirismo encontra a sua simetria nativa com  elementos sintéticos que, surpreendentemente, exploram movimentos de origem dançante.

Ao mergulhar na escuta atenta de Adorati Spiriti, o que o ouvinte encontra é uma coleção de composições mergulhadas em uma sonoridade ardentemente folkeada que destaca o nativo como a base de sua estrutura. Enaltecido pela forte presença de elementos percussivos na sua arquitetura, o disco ainda se vale de dulçores agudos que só são encontrados em meio ao misticismo transcendental associado ao aborígene. 

Misturando a agressividade da guitarra com a suavidade atmosférica, mas por vezes densa, gutural e sombria do sintetizador, Adorati Spiriti é um disco que salienta a simetria sensitiva entre Massimo Donelli e Paolo Rossi. A partir de tal união, o material alcança um patamar indiscutivelmente conceitual ao mergulhar na narrativa da história dos nativos americanos.

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