Entre o toque estéril e estridente de uma sirene e o embrião dos pulsos rítmicos, a canção de abertura não demora um instante sequer para explorar uma calmaria aveludada e fresca diante de uma atmosfera que beira uma sensualidade graciosa muito bem relacionada com o groove encorpado do baixo presente na base melódica. Com ele em evidência, inclusive, o soul se faz presente como um ingrediente que salienta a introspecção que marca a paisagem de TT’s House, uma faixa de temática intimista e superfície amaciada que prevê o torpor como sinônimo de conforto sensorial. Um aconchego que ganha precisão até mesmo diante da fluidez lírica entoada por Jimmy B Fearless e seu timbre intermediário afinado.
Ao contrário do que se presenciou na canção anterior, aqui a exploração recai com mais ênfase perante o escopo rítmico. Mais proeminente e pulsante, ele é o elemento que acaba conferindo firmeza, precisão e consistência à faixa, mesmo ela ainda estando caminhando pelos seus momentos introdutórios. Apoiada na adoção do subgrave, inclusive, a música evidencia o seu foco na aquisição de uma pressão extra, mas uma potência que, curiosamente, não interfere na sua própria silhueta frágil. Trazendo o devido protagonismo do chimbal e de sua sequencial textura seca, Last Summer confere um ambiente pautado na ambiência do rap, mostrando os primeiros sinais da versatilidade estética de Fearless.
Aconchegante e intimista perante a união de elementos como o pulso rítmico, a bojudez do baixo e o tilintar agudo e delicado do piano, eis aqui um conteúdo que explora uma sedução aparentemente pautada no romantismo. No entanto, essa ideia se desfaz no instante em que o enredo lírico começa a se desenvolver. Afinal, com a sua cadência linear, o cantor interpreta o conteúdo de forma a exortar uma notável sugestão reflexiva que enaltece a postura consciente do rapper. A partir daí, What Matters Most esbarra em um torpor inevitável que captura o ouvinte sem chance de escapatória.
Dentre a sua track list que abrange um total de 23 composições, The Love Is Real 2: Fortuna ainda apresenta outros títulos que merecem igual destaque. Fix Me, com a adoção letárgica do que parece ser o mellotron na base melódica em razão da sonoridade ácida, psicodélica e embriagante que exala, chama a atenção por conseguir oferecer audaciosas menções dançantes diante da sua maciez estético-estrutural.
Sway, com o seu convite postural que beira uma atmosfera envolta no épico, se destaca por trazer, inegavelmente, o protagonismo do subgrave na sua receita rítmico-estrutural. Soando forte, pulsante e grave, ele torna a composição densa e com brisas sombrias que atestam a sua cenografia urbana de período noturno. Ao mesmo tempo em que também garante brilho à secura sincopada do chimbal, a faixa ainda traz o rapper mesclando sua atuação entre a limpidez timbral e a adoção do autotune, conferindo-lhe uma textura digital suave.
Lows, com a sua melancolia acústica e orgânica ressaltada através do dedilhar do violão, detalhe que lhe confere uma postura introspectiva e reflexiva; e Ready, marcada pelos seus pulsos rítmicos quase trepidantes e pela sua base melódica entopecente, reforçam a imagem de The Love Is Real 2: Fortuna, com lançamento marcado para 16 de outubro, como um álbum marcadamente experimental.
Com um vasto time de produção, que abrange nomes que vão além de figuras como Bonds, Skidot, Sway G e ProdSyphon, o disco consegue lançar luz não apenas à versatilidade de Jimmy B Fearless, mas especialmente à sua sensibilidade. Com ela, o rapper conseguiu fazer com que diferentes estilos se conversassem de forma harmônica a ponto de construir um produto intimista, dramático, melancólico, denso, preciso e, principalmente, reflexivo. Isso o torna The Love Is Real 2: Fortuna um disco conceitual importante, inclusive em razão do fato de dialogar abertamente sobre o questionamento a respeito do limite do sacrifício a que as pessoas se dispõem a chegar quando vivenciam momentos difíceis.
Mais informações:




