motko dá olhar diferenciado ao rock alternativo em novo disco

Uma das coisas mais interessantes na música é quando um artista busca sua identidade em todos os aspectos que a concerne. Sim, música não é somente compor, tocar e lançar, mas é uma arte que vai desde esses quesitos, passando pela arte gráfica, que faz parte da produção em geral, inclusive a grafia, até fotos, visual e afins.

motko é o projeto solo de Shorty, um músico que passou anos tocando em bandas — Millhouse, Symbiosis, IONS — antes de finalmente criar algo totalmente por conta própria. Ele chega em sua carreira solo preocupado em manter uma estética bem particular e isso reflete em praticamente tudo que envolve sua arte e a divulgação dela.

Além da sonoridade, produção, composição, execução, logo, o nome em letras minúsculas não é um erro de digitação. A abordagem também não. Para entender melhor tudo isso, ele chega com seu mais novo disco, este “home”, que é um disco de rock alternativo com nove faixas que se desenvolve de forma lenta e deliberada.

Não soando comum, mesmo tendo uma proposta definida, “home” é um trabalho onde a identidade de motko se revela com uma forte personalidade, uma abordagem única, além de trazer um tema que se desenvolve no decorrer do disco, o que exige uma audição mais completa do trabalho.

Claro, um cara criativo e original como este jamais iria se prender a um único estilo e/ou no mínimo não manter seu leque aberto, logo, ao ouvir as nove faixas do disco, encontraremos elementos de outros gêneros e subgêneros que ajudam a moldar essa identidade única do trabalho, que carrega um tema central mesmo sem ser algo conceitual.

“home” é um disco sobre se afastar o suficiente para, finalmente, saber como ficar. É uma obra rica em camadas e de caráter cinematográfico, mais próxima de um filme do que de uma playlist.

Os poucos mais de 41 minutos têm início com a faixa “wake up”, que não poderia ter um título melhor do que este. A música é quase que uma introdução em si, já que traz um violão convidando-nos para imergir no disco, com um fundo de paisagem e canto de pássaros. Cria um mistério interessante que realmente consegue nos atrair para o escopo do trabalho.

“ready when you are” pode ser uma ilusão de ótica, já que nos entrega um pop alternativo quase atmosférico, de batida eletrônica e olhar intimista, mantendo o mistério da faixa de abertura e trazendo um trabalho vocal diferenciado.

“birds were telling us all the time” mantém a serenidade e parece ser uma continuação natural, mantendo uma trinca inicial cheia de enigmas. Porém, o seu final explode em guitarras que deixaria o Smashing Pumpkins orgulhoso, sem que motko perca sua identidade.

Logo chega “liberation”, faixa que desmonta toda essa ilusão, começando com uma guitarra explodindo na vibe do heavy metal, mas logo se abrandando (guardadas as devidas proporções) e finalmente chegando no rock alternativo que motko tanto moldou durante sua prolífica carreira. Sem dúvidas uma das melhores faixas do álbum.

Marcando a metade do disco, “sailing” carrega aquela veia um pouco mais introspectiva, com aspectos do grunge (não que as outras faixas sejam extrovertidas, longe disso). O detalhe na composição é o fato de motko trazer aquele complemento acústico, que dá uma leve hibridez e sempre funciona.

Ao ouvir a introdução de “old”, guardadas as devidas proporções, entendemos que o jazz, em doses homeopáticas, também influencia o artista. Os backings vocals femininos e um sax bem sacado confirmam isso, mas não se engane, a faixa explode em guitarras muito pesadas, gerando um som intimista que beira o stoner/doom, provando, mais uma vez, que “home” é um álbum que vai mais longe do que imaginamos.

Com uma cara de balada hard rock, mas um pouco mais ‘suja’ eu de costume, “love” pode parecer um respiro aos ouvidos, mas mantém a intensidade. Com um trabalho vocal quase esporádico, beirando as vocalizações, a música transcende a normalidade.

Bebendo um pouco na fonte do post-punk, sem cair de vez nas garras do subgênero, “wellmess” chega com um ar eufórico graças ao contexto atmosférico dos sintetizadores de fundo. Crescendo dentro de si mesma, a faixa prima pelos timbres reverberados, o que ajuda a caracterizar seu ar melancólico. O grande diferencial fica por conta dos vocais limpos e melodiosos, bem diferentes do restante do disco.

Versátil e progressiva, “you better run” é numa faixa que encerra o disco de uma forma que pode cair nos clichês, mas ao mesmo tempo mantendo a originalidade do trabalho de motko. Um dos charmes da composição sem dúvidas é ela trazer praticamente tudo que o disco dispõe, fazendo um resumo de traz pra frente de “home”.

“home” aliás que se mostra, no final das contas, um trabalho de fácil audição, mas que deve ser conferido o máximo de vezes, pois ele só fica melhor a cada delas, além de nos entregar sempre novos detalhes.

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