O som que rege a introdução imediata não pode ser definido apenas como sintético. Afinal, em meio aos seus contornos, não é difícil que o ouvinte identifique, ainda, marcantes traços de distorção na sua paisagem estética. Diante da evolução para uma conjuntura sensorial aguda, adocicada e igualmente estridente, a composição se permite construir um compasso rítmico que, através dos pulsos firmes e sincopados do beat, sugere bons sinais de fluidez. Trazendo consigo fortes traços da synthwave em razão dos timbres inspirados na paisagem eletrônica oitentista e do mergulho em uma atmosfera noturna, DREAM logic também se vale da presença de ingredientes como o indie dance e o electropop em sua receita, algo que se percebe a partir dos versos líricos melódicos e chicletes. Entre drops e momentos pulsantes dançantes, o sintetizador ainda expressa brisas de uma acidez que denunciam a presença da electro em sua roupagem. Ainda assim, a maciez, a movimentação percussiva e os versos verbais que por vezes assumem uma harmonia entorpecente, fazem da obra um produto tido como rhythm & synth.
A atmosfera crescente providenciada pelo sintetizador e a sua sonoridade aguda de traços levemente ácidos cria uma vivência sensorial envolvente e curiosamente estimulante. Rapidamente mergulhando em meio a um escopo rítmico-melódico de aparência fresca e interessantemente etérea pela energia que exibe, a faixa ainda consegue se beneficiar dos versos líricos vocálicos e levemente ondulantes que moldam a introdução de tal forma que fazem, da canção, um produto de natureza pop e apelo radiofônico. Leve em sua máxima essência, a composição destaca a sua base inquestionavelmente atmosférica que oferece os devidos holofotes à deep house, metalLIC ainda se beneficia de versos líricos viciantes dominados por uma voz masculina grave e de traços digitais. Evidenciando uma estética noturna e neon, a faixa coloca o electropop mais uma vez como sendo o seu alicerce mais valioso.
Para a surpresa do espectador, mas não no sentido do espanto, a canção, desde o seu início imediato, exibe silhuetas audaciosamente festivas que destacam uma postura expansiva, sorridente e convidativa. Pulsante, contando com momentos de chimbais trepidantes e sintetizadores agraciados por uma frieza áspera, a faixa exibe uma identidade que a configura como o produto naturalmente mais feliz e dançante de todo o EP apresentado até aqui. Tal como o próprio nome sugere, into MY heart proporciona ao ouvinte o encontro de nuances românticas conforme avançã em meio à sua própria desenvoltura. Inclusive, é justamente nesse processo que a obra torna mais clara a presença de sintetizadores de estética suave e pulsação house com direito, ainda, a uma camada verbal inteiramente popeada. Somando tudo isso a uma atmosfera envolvente, a presente faixa exibe o indie dance com irresistíveis influências de deep house que fazem com que garanta, para si, um apelo popular gritante.
Surpreendentemente, o The New Citizen Kane sai de um ambiente romanceado e envolvente para colocar o ouvinte rapidamente em contato com uma atmosfera que sugere o suspense, o denso e o tenso. Com direito a traços sombrios evidentes pela combinação de sons sobrepostos, que vai do grave ecoante ao agudo pipocante, a presente composição passa a ser agraciada por uma atmosfera de temática mais futurista em relação àquelas expressas nas suas antecessoras. Trazendo o cantor com trechos em que o seu timbre aparece mais transparente e, portanto, livre do apoio de artifícios digitais, ugly ALLIGATOR tem um refrão regido por versos líricos mergulhados em falsetes muito bem executados que auxiliam a percepção da base como sendo mais uma expoente do electropop. Ainda assim, se a atenção se pautar no desenho eletrônico oferecido, a obra se felicita de marcantes nuances electros que engrandecem a sua textura.
Aqui, nesse novo ambiente que se anuncia, a figura inédita da guitarra chama a atenção por assumir texturas ácidas ao mesmo tempo em que garantem para si uma identidade gorda de sabor azedo. Soando groovada e estranhamente melodiosa enquanto oferece a sua contribuição à paisagem melódica, o instrumento flui para um momento em que o compasso rítmico se mostra pulsante e na companhia de sons pipocantes que, vindos do sintetizador, se fundem à aparência melodiosa da voz que ocupa a esfera lírica. Entre falsetes e trechos de pura transparência, o cantor auxilia WHAT’S real a assumir a sua identidade híbrida entre indie dance com electropop, ainda que, no que tange à sua receitga conjuntural, tal como aconteceu anteriormente, seja possível perceber o electro como ingrediente que levanta o restante de seus sabores sonoros.
Mais uma faixa que constata a musicalidade e a versatilidade do The New Citizen Kane. Afinal, aqui ele não apenas reemprega a guitarra, mas a utiliza como forma de construir uma melodia que brinca entre escalas crescentes e decrescentes que culminam em uma estética de natureza curiosamente árabe que traz indícios da influência do maqam em seu estilo melódico. Ainda assim, no instante imediato em que o primeiro verso de ar se anuncia, a faixa passa a ser regida pela união de timbres sintéticos frios e ásperos na companhia de um ritmo pulsante e um andamento verbal amaciado. Misturando o synthwave como textura e o electropop como a fonte de sua energia de contágio, a faixa ainda bebe de uma base em que o sintetizador assume uma identidade interessantemente grave que contribui para a formação de densidade. De estética sensual e provocante, what YOU waiting FOR? combina o dançante com um lirismo que, inclusive, pincela cadências sincopadas que sugerem também o rap na sua simetria.
Fechando a sua track list com a versão acústica de metalLIC, momento em que o artista explora ainda mais as influências orientais a partir da adoção de sons violinísticos na regência de seu escopo harmônico-melódico na união com versos rítmicos de cunho tribal, FREE to Feel traz o The New Citizen Kane talvez em seu ponto mais alto de criatividade.
Afinal, dentro das sete faixas que regem o material, o artista não se manteve na sua zona de conforto do electropop. Ele se propôs a fundir sonoridades e texturas, algumas que, às vezes, podem até parecer desencontradas ou sem sinal de interação. Contudo, do jeito que elas foram encaixadas, a fusão encontrou seu curso e culminou em uma paisagem sônica versátil, melodiosa e atraente.
Combinando guitarra com um sintetizador marcante e sabores de um dulçor hipnotizante, FREE To Feel, na forma da primeira parte do projeto PSYCHEDELIKA Pt. 2, não apenas mostra a conversa entre synthwave, deep house, synth-pop e o maqam. Apresenta um conteúdo rítmico e upbeat com notáveis inclinações pessoais que encontram traços de vulnerabilidade, filosofia e política.
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