Sempre temos a impressão que a música que vem com temas conscientes, de alerta e/ou de protesto são aquelas que entregam uma sonoridade mais agressiva. Realmente, na maioria das vezes, os estilos mais rebeldes costumam colocar o dedo na ferida, mas não é nem uma regra e nem uma exclusividade e podemos comprovar aqui.
O DONELLI A.I. ENSEMBLE, por exemplo, é um grupo italiano que aposta no soul, jazz, world music, enfim, está sempre de leque aberto, além de tocar temas instrumentais, e tem consciência de tudo que está passando pelo mundo, trazendo em seu mais novo disco um alerta importante e pertinente.
“Previsioni del tempo incerto”, seu mais novo single, não aborda apenas eventos climáticos cada vez mais extremos e imprevisíveis, mas também um período — o que estamos vivendo — caracterizado por mudanças repentinas, rápidas e muitas vezes dramáticas que jamais imaginamos. Isso já mostra um pouco do jogo que os caras estão jogando.
O disco, que eles também intitularam como “Uncertain Weather Forecasts” traz uma jornada por dezoito faixas — algumas das quais remetem a eventos passados que ecoam no presente — que transitam pelo jazz, pelo rock progressivo e pela mencionada world music’, sem nunca fechar o leque, onde encontraremos algumas surpresas pelo caminho.
O projeto é comandado por Massimo Donelli, músico italiano por vocação, que dedicou a vida ao jornalismo e agora se volta integralmente à música. As composições de “Previsioni del tempo incerto” têm origem humana e foram reelaboradas com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial para criar novos arranjos e sugestões, sempre sob controle humano e utilizando estações de trabalho dedicadas.
Com quase uma hora e meia, o trabalho acaba soando híbrido, entregando versatilidade, bom gosto e uma sensibilidade de quem tem conhecimento de causa naquilo que aposta, transmitindo segurança e honestidade, sem querer ludibriar o ouvinte.
O disco abre com a faixa título mostrando exatamente o tato que a banda possui, num funk soul magistral, que nos remete a uma jam e traz a energia necessária para que emergimos no disco. Já em “Cobalto”, o jazz soul encanta pela técnica e sensibilidade, em um trabalho um pouco mais intimista e que mostra uma técnica apurada de composição. Bilíngue, a faixa chama atenção pelo contexto versátil, inclusive flertando com o rock progressivo.
“Borea” é a primeira instrumental, com um saxofone sensual e aquela veia jazzística do pop que cativa. Interessante que a música comprova o trabalho de vocalizações que o DONELLI A.I. ENSEMBLE explora como complemento dos arranjos. Enquanto isso “Capo Giuseppe” chega com uma mescla de progressivo e new age que deixará os mais saudosistas em êxtase. A faixa emana as mescla dos estilos, com um ar soturno e misterioso que encanta.
Para provar que as influências vão o mais longe possível, “Villistas” traz elementos da música latina, com ênfase no flamenco, em uma energia incrível. Enquanto isso, “Claudia”, volta ao contexto balada sensual, com o saxofone conduzindo melodias em uma faixa instrumental melhor ambientada. Interessante a relação contrastante com “Sulla Strada”, já que também temos uma música instrumental conduzida por metais, mas aqui mais dinâmica e que duela com a guitarra, além de trazer uma cozinha onde os elementos percussivos e o groove do baixo são fundamentais.
“Pigalle” traz o retorno dos vocais no disco e entrega uma música onde boa parte do mundo influencia no contexto musical. A faixa é globalizada, e traz elementos do pop, new age e um fundo latino cativante. Enquanto isso, “Batticuore” retorna ao funk soul com uma cozinha fenomenal, que chama atenção de cara.
Se existe limite, o DONELLI A.I. ENSEMBLE, afinal de contas, em “Tiki Beat”, eles entregam uma mescla de música atmosférica com afromusic, e tudo sem perder sua identidade. E a faixa seguinte, “Città Futura”, mantém um fundo nesse contexto, mas emanando o funk com metais providenciais, enquanto “Spot” mantém o groove em alta com uma bateria de viradas magistrais.
Realmente a reta final encanta pelo groove e em “Grot”, a música universal mais uma vez pede passagem com uma energia ímpar. “VUCA” chega com essa premissa, com a new age mais grooveada que você vai ouvir hoje e “Kali Yuga Dub” faz jus ao nome, bebendo na fonte do reggae com uma mescla incrível de música do oriente médio.
Entrando na reta final, temos uma das faixas mais sensacionais do disco. “La guerra è finita” é uma composição cheia de aura, mistérios e intensidade, além de trazer à tona praticamente todos os elementos que compõem o disco, numa mescla que define a personalidade do projeto.
Uma aula de funk soul em “Dopo la tempesta”, bem quando achamos que o trabalho ia terminar em algo mais choroso, o DONELLI A.I. ENSEMBLE nos entrega puro feeling e emoção. Eis que surge “Ninna nanna”, com um saxofone que realmente faz com que o trabalho dê adeus de forma clássica e sublime. Sem dúvidas, com “Previsioni del tempo incerto” em seu music player, não haverá tempo ruim.
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