A forma como o piano puxa a introdução chama a atenção por ser introspectiva e sonoramente minimalista. Explorando, portanto, poucas notas, o instrumento consegue criar uma atmosfera de tonalidade interessantemente grave que intriga o espectador na busca da fonte dessa sonoridade. Soando melancólica, a melodia cresce em presença, mas de forma lenta, a partir da adoção de teclas cujas reverberações proporcionam sons mais abertos e agudos. Delicada em sua máxima essência, a faixa traz consigo uma estrutura charmosa e levemente ondulante que suscita a percepção de um movimento amaciado bastante envolvente. Sem reviravoltas no que se refere à sua narrativa, Across My Garth caminha por uma linearidade harmônico-melódica que entorpece o espectador a cada nova esquina atravessada.
As notas graves surgem em meio a uma sintonia curiosamente ondulante. De natureza grave, mas não de maneira excessiva, elas vão proporcionando um interessante toque de expectativa misturada equilibradamente com um suspense audacioso. Ainda assim, a partir do momento em que a agudez se torna uma característica sobreposta, a composição favorece uma paisagem mais convidativa e até, de certa forma, positivista. Inclusive, a união dessa afinação com a base profunda já mencionada anteriormente faz com que a canção adquira contornos de um diálogo que sugere luz e sombra, leveza e tensão, ainda que não de forma bruta. Harmoniosa justamente em razão dessa estratégia, Rosemary’s Tune favorece a obtenção de um movimento valsante atraente e de um aroma floral graciosamente penetrante.
De estrutura borbulhante, o piano entra em cena por meio de um vaivém de escalas frequente e sequencial, promovendo, inclusive, a ideia de ondulação. Conseguindo apresentar contornos pulsantes interessantes a partir da pronúncia de suas notas duplas, o instrumento consegue transformar os simples impulsos de torpor em algo onírico marcante de forma a beirar até mesmo o conceito de brisante. Caroline-Gogoline, a partir daí, sugere uma atmosfera sonhadora enquanto, curiosamente, é capaz de oferecer uma energia ligeiramente densa por meio de sua linearidade estético-estrutural.
Interessantemente, mesmo diante da combinação de tonalidades graves introduzidas pelas suas teclas, o piano faz com que a canção transpire uma energia densa e sombria. Mais interessante ainda é observar que essa impressão rapidamente se esvai conforme a sonoridade vai assumindo uma natureza puramente sincopada, contribuindo, assim, para o início do oferecimento da noção rítmica. Ainda assim, quanto mais avança, mais a canção mostra a sua complexidade e capacidade de surpreender, afinal, ela brinca entre a leveza e o peso a partir de sons fluidos e leves com outros graves e densos. Apple In Red se configura como o perfeito equilíbrio entre a dança e a consciência.
Dramática e melancólica. Pegajosa e pungente. Densa e cabisbaixa. É assim que a composição é marcada na sensibilidade do espectador, atitude que é generosamente amplificada conforme notas duplas de uma tonalidade grave vão sendo proferidas e ocupando os espaços da esfera harmônico-melódica. Monocromática em meio à sua paleta cinza, a composição vai transpirando uma postura inclusive lacrimal que chega a até tocar o ouvinte, mas ainda sem lhe causar clamor. Interessantemente, porém, é possível de se observar que o movimento de Little Lime sugere a saída do torpor autoinfligente para a aquisição de sensos sinceros de resiliência e determinação, como a chegada da luz depois da sombra. Sem brutalidade, mas explorando bem as profundezas emocionais, a faixa consegue comover o ouvinte de forma agradavelmente orgânica.

Algo diferente é avistado ao longe. Uma nova textura, áspera, um tanto grave e acústica aparentemente retirada de um instrumento de corda. Ainda que de pronúncia distante, esse som causa um impacto de curiosidade enquanto explora a expectativa e a dúvida. Brincando com dedilhares trotantes e agudos que se sobressaem ante a base pulsante e grave, o piano se apresenta de forma a combinar, audaciosamente, ideias sensoriais relacionadas ao lúdico, mas também ao esquizofrênico. Inspirada no formato de uma polca, o que, inclusive, acaba se assemelhando à estética dos trabalhos de Chopin, Cracow Guy mistura um interessante estímulo de ânimo com um torpor diretamente associado ao hipnotismo fortalecido principalmente pelo sobe e desce de escalas tonais e pela aparição de instantes harmonicamente festivos.
Dramática, intimista e um tanto transcendental, a canção é embalada por um som de natureza amaciada que flerta com a estética de melodias de ninar em razão de sua aconchegante mansidão. No entanto, conforme evolui em meio ao seu próprio processo de desenvolvimento, Page Of The King esbarra em um movimento melódico ondulante e repetitivo que expressa uma insistente linearidade conjuntural. Com ligeiras mudanças em sua forma e sendo o produto de duração mais curta de todo o álbum, a canção, surpreendentemente, consegue fornecer ligeiros ímpetos dançantes diante de seu compasso.
Seu despertar estimula a percepção do sombrio enquanto sons de natureza estridente causam certa estranheza ao ouvinte. Introduzindo seu nascimento propriamente dito a partir de um ondular de notas que gradativamente tem explorado a sua proeminência, a canção passa a se aventurar por uma espécie de frescor gélido que inunda o ecossistema com uma energia inquestionavelmente introspectiva e brisante. Diante disso, é até belo de se observar a forma como Brickin’ Cellar se aventura no aprofundamento de aromas florais por meio de seu próprio aspecto adocicado.
O que Marcin Sanakiewicz entrega com Unfolked Piano. Some Polish Themes não é uma simples peça à base de piano. É uma coletânea de canções que explora a sua origem e o seu berço cultural. Com bastante delicadeza e equilíbrio na forma como explora formas, movimentos, harmonias e texturas, mostra um vasto domínio na arte pianística, proporcionando graciosos aprofundamentos sensoriais que engrandecem a experiência auditiva do espectador.
Entre o agudo e o grave; a ideia dicotômica de luz e sombra; a ambiguidade do festivo com o introspectivo e a antítese do alegre e do melancólico, o disco se mostra um prato bem servido para aqueles apreciadores de peças para piano com sensibilidade, técnica e originalidade. Com traços de ternura e exibindo, inclusive, referências àqueles que inspiraram a sua atuação, Sanakiewicz pode se mostrar satisfeito com Unfolked Piano. Some Polish Themes, um disco de silhuetas folkeadas, modernas, espaciais e reflexivas.
Mais informações:
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