Existe uma leveza graciosa moldando o ecossistema sonoro. Com frescor, aroma e uma gentileza convidativamente aconchegante, o violão vai demonstrando uma postura não apenas receptiva, mas, principalmente, adornada por boas doses de ternura. Inclusive, a partir de sua melodia, o instrumento, que assume papel de protagonista absoluto, ao menos durante a introdução, permite que o ouvinte perceba a presença de brisas que transformam o ambiente em algo interiorano e bucólico. Destacando a simplicidade, a canção cresce minimamente com a presença de pulsos rítmicos de aparência sintética que se fundem à aparição de uma voz masculina afinada e agridoce preenchendo a camada lírica. Sem drama, mas construindo um desenho introspectivo cativante, a faixa adquire adornos cuidadosamente folkeados com a entrada de uma bateria firme e de cadência curiosamente quebrada. Esteticamente minimalista, I Thought I Won The War explode em um refrão que denuncia a presença do baixo e seu groove encorpado, mas levemente seco. Nesse ínterim, o ápice sonoro-narrativo também destaca a existência de um som agudo e açucarado aparentemente vindo do xilofone que se mostra capaz de construir um apelo viciante em relação ao ouvinte.
Saindo daquele intimismo sem dramaticidade exposto anteriormente, o que a presente canção faz é completamente o oposto. Por meio do violão, agora mais duro e rígido que, consequentemente, produz um clima mais frio, uma densidade e um suspense intrigantes passam a brilhar diante do ecossistema. O curioso é perceber, porém, que a canção se permite explorar brisas de um caráter onírico marcante a partir do som agudo e levemente pipocante produzido, novamente, pelo que parece ser o xilofone. É esse som que, inclusive, coloca o ouvinte diante de uma audaciosa mistura sensorial de introspecção e esoterismo. De certa forma, essa energia permite e incentiva o vocalista a entrar em cena apoiado em uma interpretação lírica sussurrante que fortalece o estado de letargia. Introspectiva e estruturalmente minimalista, California Calls se mostra uma faixa cheia de melancolia e uma nostalgia de silhuetas bastante pegajosas.
Existe uma mescla de texturas capaz de ser percebida pelo ouvinte de forma profundamente inebriante. Enquanto o violão molda a base melódica com uma maciez fresca e de nuances minimamente delicadas, há um audacioso tom de aspereza e densidade pairando pela superfície sônica que mistura as ideias de tensão, corpo e consistência. Ao mesmo tempo, a guitarra, a partir de um efeito levemente espacial, coloca perante o cenário uma conotação de completo suspense de forma a flertar até mesmo com o misticismo. Dando vida ao enredo lírico por meio de versos adornados por cadências faladas e ausentes de um caráter propriamente melodioso, esse timbre vai fazendo com que Over And Over vá assumindo uma identidade cada vez mais soturna adornada por resquícios do rock alternativo no que se refere à sua estrutura. Hipnótica, a faixa chama a atenção especialmente e principalmente pelo clima fúnebre que proporciona conforme avança diante de sua própria estrutura.
A delicadeza, a mansidão e o conforto retomam a sua presença. Essas características sensoriais fazem com que o ouvinte rapidamente se ambiente diante de um contexto mais receptivo e aconchegante. Ainda assim, é interessante mencionar que Firefly, dentro dessa paisagem acolhedora, acaba exortando uma brisa profundamente nostálgica. Com um delicado minimalismo instrumental, a faixa aparenta querer oferecer compaixão diante de um clima dolorido e envolto em uma espécie de melancolia nostálgica generosamente tocante. E o que a torna decididamente emotiva é a camada linear que o hammond monta perante a sua sonoridade adocicadamente ácida bastante típica. Por meio dela, é até possível dizer que a canção adquire certo quê de elevação espiritual, o que a torna ainda mais frágil e vulnerável.

Diferente de tudo o que foi visto até então, a presente faixa coloca o ouvinte diante de uma estrutura aberta, envolvente, contagiante e de nuances curiosamente radiofônicas. Seja em razão da cadência rítmica, seja pelas modulações vocais, o fato é que a canção se permite experienciar um instrumental mais completo, não que isso signifique fugir da sutileza. Pelo contrário. Com a presença da bateria e da guitarra interagindo abertamente com o violão, All In My Head traz consigo uma paisagem sônica definitivamente atraente que cresce e desemboca em um refrão de lirismo chiclete embasado na presença corpulenta do baixo, que chega a oferecer o grau de densidade ideal para que a canção transpire firmeza e força. Combinando nostalgia e melancolia sob um véu curiosamente aconchegante, eis aqui uma faixa construída sobre a sinceridade mais pura relacionada à dor de um coração ferido pela insistência, pela fé e pela persistência.
Trazendo uma textura um anto inédita para o centro dos holofotes, a canção se constrói a partir de um dulçor devidamente açucarado e ácido. Sem crueldade, brutalidade ou agressão, essa superfície inspira uma delicadeza tocante ampliada sobremaneira com a companhia terna do violão na base melódica. Tão intimista quanto uma cantiga de ninar, a canção se aventura na exploração de nuances minimamente atmosféricas enquanto busca ampliar a sua silhueta de brisas reflexivas. Mansa e cuidadosamente aromática, Song To Jamie é uma espécie de carta escrita a Jamie por um ser onipresente que preenche cada linha com dizeres de cunho motivacional e representativo. Uma mensagem de superação e resiliência que dá a força necessária para enfrentar a vida e seguir em frente.
Love Crash, para começo de conversa, é um disco indubitavelmente delicado, introspectivo. Não há, nele, rendições abusivas ao drama ou à pungência, ainda que certos temas e roupagens peçam um sentimentalismo mais profundo e visceral. De caráter estrutural minimalista, o disco mostra a capacidade do Block em fundir assuntos emotivos com texturas e superfícies sonoras às vezes acolhedoras e, às vezes, igualmente dolorosas.
Isso é, portanto, uma forte e incontestável prova em relação à sinceridade empregada na construção de cada conteúdo, seja ele em vias instrumentais ou líricas. Focado no folk e no seu minimalismo estético, o disco traz simplicidade e sutileza, detalhes capazes também de fazer sobressaltar a tensão e o visceral. Junto com os verbos e as harmonias líricas, Love Crash se transforma em um produto aberto sobre coração partido e perda, mas também marcado pelo humor e por uma positividade que faz o ouvinte ter um honesto gosto pela vida.
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