É interessante de se perceber o efeito sensorial que a sobreposição das guitarras causa durante os momentos introdutórios imediatos da composição. Fundindo um suspense com expectativa, torpor e um traço de frescor, elas fornecem uma melodia branda e de postura profundamente introspectiva. Conforme avançam em sua sincronicidade, a melancolia se torna um caráter sentimental imvariavelmente estimulado, construído e delicadamente difundido pelo ambiente em processo de construção. Inclusive, ao se apegar à base harmônico-melódica, o ouvinte não apenas entra em um estado latente de letargia como também mergulha em uma dramaticidade inquebrantável em razão dos rugidos graves e levemente encorpados do violoncelo. Ganhando densidade e precisão com a entrada simultânea da bateria e do baixo, de forma a elaborar uma base rítmico-melódica densa, consistente e precisa, a faixa vai combinando menções de um conformismo irrefutável diante de seu caráter inquestionavelmente atmosférico. Ainda que seja regida por certo grau de linearidade estético-estrutural, o que Over faz é envolver o espectador, a partir de um enredo lírico vivido por uma voz masculina adocicada e bojuda, em uma narrativa reflexiva que envolve a realidade da juventude atual, insensível, cega e sem motivação.
A guitarra produz um som seco e ligeiramente trotante que faz escapar sinais de uma agudez que tenta despertar um senso de suavidade em algo que já se mostra denso. Explorando diferentes texturas a partir de efeitos de aparências digitais que moldam o horizonte da paisagem em construção, é interessante notar que a presente faixa mergulha ainda mais profundo em uma energia de conotação reflexiva a partir de sua levada rítmica pulsante e sincopada, sua melodia intimista e seu baixo de groove elaborado entre azedume, estridência e corpo. Transpirando, sem qualquer sinal de dificuldade, sinais de uma inquestionável fragilidade a partir tanto de sua estética quanto de sua estrutura, é curioso encontrar os uivos aveludados da guitarra como uma ousada forma de estimular a aquisição do senso de esperança no ouvinte. Sem escapar das resistentes brisas melancólicas que capturam a sua paisagem, a faixa tem sua narrativa lírica interpretada de forma a exortar sinais de uma pungente decepção. Diante disso, Glass Houses se configura como uma obra nostalgicamente lancinante que envolve culpa. Uma obra que lida com a percepção de uma realidade tristemente decepcionante que desconstrói a beleza, a pureza e a ingenuidade de um passado em que tudo era belo. Eis aqui um produto que não dialoga, estritamente, apenas sobre amadurecimento, mas, sim, sobre a solidão que ebule no interior do indivíduo a partir das inalcançáveis memórias de um sonho em que a harmonia reinava.
Curiosamente, existe uma melodia aveludada mais facilmente degustável sendo evidenciada pela guitarra. Combinando frescor e uma nuance de caráter levemente sincopado em meio ao movimento em execução, o instrumento parece combinar uma postura mais aberta, mas não necessariamente expansiva a ponto de ser convidativa. Com bom corpo providenciado por um baixo de groove grave interagindo diretamente com uma bateria de levada rítmica interessantemente leve, a faixa vai ganhando firmeza e precisão conforme o vocalista vai desenhando os primeiros sinais do enredo lírico, os quais se veem na companhia de consistentes pulsos rítmicos. Trazendo novamente a combinação entre o intimismo e o caráter reflexivo para o centro das discussões, a faixa, ainda que resida em uma aparente linearidade melódica, oferece singelas noções de movimento em meio às modulações líricas que se formam em um tom de súplica. E como um pedido desesperado, I Know Better é uma composição que fala de um indivíduo aprendendo sobre si diante de um processo de autoconhecimento e amor-próprio profundo. Um indivíduo envolto em um sintoma depressivo latente que o cega às coisas boas que acontecem em sua vida e que destacam a luz.

Ainda que a linearidade melódica entoada pela guitarra seja o primeiro fator a ser identificado pelo espectador, a composição logo o leva para um ambiente ritmicamente sincopado e encorpado que, inclusive, é capaz de ofertar gentis doses de um tímido frescor. Delicada, necessário dizer, a faixa chama a atenção por trazer um contexto conjuntural, aqui abordando harmonia, melodia, ritmo e até mesmo as modulações líricas, que traz consigo curiosas e, talvez, despropositadas brisas de influência do Creed em sua elaboração. Estruturalmente macia, a faixa traz consigo um senso de elevação interessantemente explorado de forma a trazer sutis conotações espirituais em sua ambiência. Sugerindo um tom de consciência, Lost Or Won flui para um refrão entorpecente que tem, nos singelos tilintares do pandeiro, uma textura que oferta, com sutileza, mais lucidez ao espectador.
Desde o seu imediato despertar desfilando uma natureza rítmico-melódica sincopada, a faixa, a partir da movimentação que a guitarra exerce em meio ao seu riff limpo e agudo, oferece uma inusitada similaridade sensório-estética em relação àquela obtida pelo Paramore em Decode, seu respectivo single. De conotações suavemente etéreas alcançadas pela sua brisa atmosférica, a faixa, ao menos durante seus momentos introdutórios, tem, na sonoridade desenvolvida pelo baixo, a ousada fonte de movimento a ser sugerida ao ouvinte. Diante de um lirismo que se constrói perante um tom de reflexão envolto em uma conotação que beira a súplica e um ligeiro respingo de angústia, Runaway explode em um refrão de textura surpreendentemente crua em razão do riff adotado pela guitarra que incute intensidade, amplifica a agonia e prende a audiência em um viés de ímpetos viscerais.
Ao decorrer de suas cinco faixas, Not Over se mostra um EP com texturas e atmosferas muito bem pensadas e construídas. Envolvendo o ouvinte em uma experiencialidade sensorial que o coloca em contato não apenas com a melancolia, mas com a densidade, a consistência e, principalmente, a reflexão e o intimismo, o material ainda propõe instantes de crueza e dramaticidade que amplificam o seu contexto emocional.
Trazendo consigo, a partir daí, um alicerce estrutural que combina o indie rock com menções atmosféricas robustas envoltas em brisas de um rock alternativo pungente, o EP propõe um caminhar perante a nostalgia e o soturno de forma a flertar com o etéreo. De postura enraizada no pensar, Not Over explora, de maneira mais profunda, temas como autonomia e continuidade, o que lhe confere e fortalece o seu viés espirituoso e transcendental.
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