A faixa já nasce diante de um beat bem macado, de postura progressiva moldada em meio a um kick suave e a chimbais de natureza orgânica. Ainda que pulsante, ele se destaca por oferecer ao ouvinte uma agradável noção de fluidez associada com uma maciez estética estonteante. Diante dessa arquitetura rítmica, inclusive, Fleanger já permite ao ouvinte perceber que a faixa-título mergulha na cenografia sônica da organic house, que, no presente caso, apresenta um andamento de 120 bpms. É então que o espectador se depara com um princípio de melodia se apresentando por meio de notas de conotação aguda e adocicada capazes de entorpecer o espectador. De natureza atmosférica alcançada por meio de pads e texturas aparentemente filtradas, essa sonoridade, interessantemente, fornece ao ouvinte uma ligeira associação em relação à estrutura melodiosa de Clocks, single do Coldplay. Ainda que apresente uma estrutura conjuntural repetitiva no que tange seu escopo sonoro, a faixa-título, diante de seus mais de seis minutos de duração, envolve o espectador em uma atmosfera entorpecente, delicada, aromática e, também, marcada por um break central que lhe confere uma postura inquestionavelmente contemplativa. Amorfinante e, portanto, suave, a obra possui, ainda, um retorno gradual do groove, o que enaltece a sua natureza suave, introspectiva e de brisas transcendentais, isso sem excluir as progressões modais simples e a presença de samples vocais que garantem à obra uma ligeira inclinação etérea.
Desde seus primeiros vislumbres sônicos, o ouvinte não tem sequer uma dúvida em relação à mudança estético-estrutural sofrida pela composição Down. Nas mãos de Marcos Calegari, ela, ainda que mantenha traços de sua essência atmosférica, ela, agora, passa a ser adornada por uma introdução rítmica mais direta pautada na marca dos 122 bpms que lhe confere um clima mais club. Sendo agraciada, portanto, por uma silhueta mais dançante, a versão de Calegari tem drop com groove mais denso, além de se utilizar de uma bass line mais bem definida. Conquistando frescor, algo não observado com facilidade em sua versão original, o presente formato de Down reduz partes ambientais muito longas e se fixa na experimentação de uma textura mais profunda, destacando, portanto, o seu ecossistema de apelo puramente noturno.Impossível não destacar também que, em meio à sua extensão de pouco mais de um minuto em relação à faixa original, a presente adaptação apresenta harmonias mais dramáticas e pulsantes graças à utilização de camadas pads mais escuras.
Na mesma métrica rítmica da versão original de Down, Body Language entra com uma estrutura pulsante que, curiosamente, denuncia uma postura levemente mais amaciada, o que suscita em uma sensorialidade associada ao sensual. Com seus 120 bpms e groove de caráter progressivo, a canção consegue atrair a atenção do ouvinte e chamá-lo para a pista de dança ao mesmo tempo em que consegue entorpecê-lo em razão de sua linearidade rítmica. Agraciada pela aparente inserção de linhas líricas sintéticas vocálicas, a presente faixa é embebida em uma estética luminosa e corporal, a tornando uma espécie de contraponto emocional do EP. Com menos tensão rítmica, mas contando com uma percussão de natureza orgânica e leve, a faixa amadurece a sua identidade de forma a fazê-la mais envolvente e, inclusive, de postura mais positiva.

Com Down, Fleanger mostrou um verdadeiro conhecimento de composição, estética, estrutura e noção de musicalidade. Afinal, cada uma das três músicas que compõem a sequência de faixas do EP conversa de uma forma bastante harmônica, produzindo um movimento cíclico, como se uma história sônica estivesse sendo contada.
Da versão original de Down, existe o intimismo associado ao atmosférico. Ao avançar para a remix assinada por Calegari, o ouvinte já tem um contexto que mistura o espectro club com traços mais noturnos, lhe conferindo um apelo até mesmo mais dançante. Quando se chega em Body Language, o espectador se vê diante do luminoso, do expansivo. Do sensual. É aqui que a envolvência atinge o seu ápice.
Diante dessa análise, Down se configura como um EP que explora uma experimentação sensorial profunda. A partir daí, é inquestionável que ele se paute mais na imersão sonora do que, necessariamente, em um impacto sonoro mais imediato. Equilibrado entre melancolia, imersão e calor orgânico, o material se mostra um grande candidato às pistas de dança globais.
Está certo que cada uma de suas três faixas pode ser indicada para momentos distintos da experiência do espectador. Conforme ela vai avançando e vai se tornando cada vez mais densa, o EP vai correspondendo à mudança de energia em sintonia com as novas necessidades que vão surgindo.
Do crepúsculo noturno ao crepúsculo do amanhecer, Down promete a mais profunda experiência imersiva que combina melodias de nuances atmosféricas, beats pulsantes e firmes, além de uma luminosidade estética de caráter irresistivelmente sensual. Essas são marcas da inspiração sofrida por Fleanger em relação à cena eletrônica de Berlim: evolução gradual e paciente, camadas entorpecentes, bem como fundações rítmicas profundas.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5ug9BHzM9kJpmbdaWCfFE8
Soundcloud: https://soundcloud.com/fleanger
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCRIyyUlkSho1YvwvYfW7uWA?view_as=subscriber
Instagram: https://www.instagram.com/fleanger_musik/
Facebook: https://www.facebook.com/profile.php
