Parece haver uma dissonância proposital que permeia todo o processo introdutório da composição. Enquanto o escopo lírico é apresentado a partir de uma voz masculina que, vinda de Liulf Lucifer, se apresenta completamente imersa na utilização do efeito do autotune como forma de angariar mais textura, o compasso rítmico é percebido de maneira singela a partir do som do estalar de dedos. De natureza inquestionavelmente crua, é curioso perceber que Not Scared Of Lonely consegue, mesmo assim, proporcionar ambientes que conduzem o espectador a um mínimo de veludo e sensualidade. Introspectiva e se mostrando, a partir do refrão, pulsante e com estímulos dançantes, indica a sua imersão estrutural no campo do universo híbrido entre o rap eletrônico e o electro dance. De base, portanto, eletrônica, a composição acompanha um indivíduo buscando, na solidão, o aconchego e o senso de proteção em relação ao vazio do coração, ou seja, da decepção e frustração por não ter encontrado o verdadeiro amor.
Os melismas e os falsetes se confundem de uma maneira interessantemente harmônica diante da introdução da composição. Enquanto Lucifer insere certo grau de sentimentalismo a partir dessas técnicas vocais, a canção vai sendo melodicamente moldada por pulsos de teclados cujas notas sugerem um sabor levemente adocicado com notas dramáticas. Mostrando, a partir daí, uma base eletrônica que se aproxima de tendências dançantes, Rise Up, conforme amadurece a sua estrutura e elucida uma arquitetura capaz de atingir organicamente o senso de contágio, destaca a sua produção eletrônica capaz de rememorar a cenografia sônica da dance music. Contando com um beat pautado em 128 bpms, em média, a faixa se destaca por garantir para si certo grau de independência estilística, afinal, ao se enraizar no ecossistema híbrido entre rap e dance music, ela se permite não ser necessariamente categorizada como EDM ou outro subgênero referente a esse mundo específico. O interessante, portanto, é observar que Lucifer se utiliza, aqui, dessa energia envolvente para dar ênfase e força a um lirismo carregado de resiliência, autoconfiança, determinação e senso de superação. Uma obra claramente motivacional cheia de menções de empoderamento.
A cadência lírica surge levemente mais acelerada do que as apresentadas anteriormente. Em comparação, porém, o andamento do beat vem ligeiramente mais lento, o que confere à canção um fator de danceabilidade moderado. Ainda assim, é incontestável que os elementos eletrônicos colocados na obra pelo emprego do sintetizador lhe dão um estímulo envolvente quase irresistível. Pautada, portanto, na mescla de andamento rítmico e lírico-interpretativo, a faixa é regida por pulsos firmes e atraentes que, quanto mais amadurecem, mais produzem um estímulo de sensorialidade sensual. Com TYRANT CLUB, Lucifer aposta em um conteúdo cheio de sexualidade, libido e descrições quase transparentes de seus desejos e atos carnais. Eis, aqui, portanto, uma obra de liberdade, de clímax, de tesão. Um produto que, mesmo minimamente dançante, envolve o ouvinte em uma sensualidade difícil de se resistir.
Um sonar eletrônico e levemente pipocante surge conduzindo o espectador a perceber os primeiros sinais do compasso rítmico. Sensual e atraente, a faixa, tão logo se inicia, já dá a liberdade necessária para que o enredo lírico se desenvolva. Com uma sensualidade libidinosa e pegajosa altiva, a composição, conforme amadurece a sua estrutura, denuncia versos com base em um beat minimalista e um refrão expansivo propositadamente contrastante. Sincopada, cuidadosamente pulsante e com uma energia provocativa latente, FOR FREE CLUB traz consigo uma energia equilibradamente noturna e urbana que se destaca em meio a sub-basses fortes e graves. Com leves menções de drop instrumental, algo padrão da atmosfera club, a canção traz um lirismo escrachado, transparente e ainda mais direto do que aquele fornecido em TYRANT CLUB. Focada na figura fálica e no potencial sexual, a faixa, ainda que excessivamente literal, traz consigo uma necessidade de autoprovação e busca por um senso de respeito associado levemente ao caráter de pertencimento.
De início pautado em uma estrutura sonora amaciada em contato com uma linha lírica já madura e firme em meio à pronúncia desenvolvida sobre melismas e falsetes bem executados, a faixa sai de um perfil mais atmosférico conforme ganha, rapidamente, um estímulo envolvente graças ao caráter firme de seu beat moderado, algo mais associado às estéticas do trap e rap eletrônicos. De crescente com base cuidadosamente brisante, FOOLISH se destaca por misturar nuances de dark pop eletrônico com trap a ponto de construir um clima que, levemente melancólico e introspectivo, se envolve em um enredo lírico pautado no senso de autovalorização. O caráter associado ao amor-próprio é, portanto, a principal marca de tal contexto verbal, o qual ainda tangencia a autoconfiança e aborda o rechaço à mentira e à enganação.
A canção se inicia em meio a um interessante uníssono entre as camadas sônica e verbal. De nuances atmosféricas hipnotizantes providenciadas firmemente pela desenvoltura do sintetizador, a canção mostra certa permissão na exploração de camadas mais amaciadas que, no entanto, não conseguem esconder as suas energias noturnas e urbanas que dão, ao ouvinte, uma sensação de estar completamente imerso em um club underground. De brisas sensuais e drops curtos, a faixa mergulha em um refrão de natureza sequencialmente pulsante que lhe confere um estímulo dançante levemente mais acelerado que aquele observado na obra anterior. De progressão simples e curta no que tange a harmonia, além de chimbais pautados em subdivisões rápidas, Gay HOLLYWOOD CLUB se apresenta como uma faixa que, com maior destaque, fala sobre pertencimento de forma clara. Ainda assim, dentro dessa temática, existe a busca por respeito e reconhecimento ao mesmo tempo em que insinuações descaradamente libidinosas são lançadas sobre a pista de dança.
Definitivamente, The Rhythm That Made The Beast apresenta uma coleção de canções focadas no universo LGBTQia+. Cheio de sensualidade, camadas harmônicas, subdivisões rítmicas e atmosferas mistas de sombrio e urbano, o material foca em questões inerentes à autovalorização, o respeito, o autoconhecimento e, também, o senso de pertencimento.

Ainda que se valha por bases dançantes e com muita influência da música eletrônica, porém, o disco não pode, necessariamente, ser associado à house, ao techno à EDM ou quaisquer outro universo da música eletrônica. Isso acontece porque, em sua máxima essência, ele traz consigo uma identidade trap dançante que atrai o espectador em razão de sua identidade híbrida entre a própria música eletrônica e o rap dançante.
Sensual, contagiante e audacioso, The Rhythm That Made The Beast é ainda agraciado por vários instantes de crueza estética que auxiliam na percepção de cada sonoridade nele experimentada. A partir daí, é possível compreender que, dentre a totalidade de sua track list, as suas seis primeiras faixas merecem mais atenção simplesmente por apresentarem todos os fatores até aqui elencados com mais destreza.
Mesmo assim, nessa soma de importância, mesmo que em um caráter menor, Caught In Your Glow, com seu veludo sintético e veia que rememora a estética disco; Melody On Repeat, com sua linha lírica inicial melismática e ornamentalmente fluida a ponto de rememorar o canto árabe baseado no maqam; e Whats Next, com sua leveza sincopada, pulsante e dançante, fecham a conta das canções em destaque. Elas ajudam na constituição de uma imagem experimental, urbana, noturna, dark e dançante por parte de The Rhythm That Made The Beast.
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