De maneira gradativa, o ouvinte vai sendo inserido em um ecossistema de nuances etéreas e entorpecentes. Envolto em um sabor adocicado e em uma textura de caráter equilibradamente amaciado, o torpor surge como grande aliado da experiência sensorial que começa a se formar a partir da presença da sonoridade sintética em exercício. De sabor doce, mas agraciada por uma marcante brisa melancólica em razão das notas graves do piano que se misturam cuidadosamente no cenário, a composição se destaca como um produto de natureza postural confortavelmente intimista. Mantendo certa linearidade no que tange à experimentação de um caráter espiritual, a faixa-título faz com que o ouvinte se perca em meio a uma ternura gentil capaz de emocionar e lançar lágrimas aos olhos. Frágil e cheia de camadas sônicas digitais que se combinam em prol da vulnerabilidade, a canção ainda surpreende por apresentar recortes sônico-narrativos de natureza dramática pela maneira valsante e melancólica com que o violino se ocupa da harmonia.
Diferente daquilo que foi observado na canção anterior, aqui existe a exploração de uma sonoridade curiosamente mais densa, mas ainda mantendo a identidade sintética. Agraciada por sinais de um groove que se mostra a partir de pulsos cadenciados, a canção vai envolvendo o espectador em um ambiente de caráter irresistivelmente transcendental que se evidencia perante as outras duas camadas de sons digitais. Embriagante e de aromas aéreos, Pulse Language se mostra uma composição delicada no que tange à máxima significância da palavra. Entre maciez e uma acidez curiosamente aconchegante, doce e emocional, a canção flui para o instante da ponte, a qual se apresenta diante de um minimalismo absoluto em que apenas os pulsos groovados duplos e o som seco que reproduz a figura do chimbal são percebidos, criando uma atmosfera enxuta e densa.
Não existe apenas tensão. Existe, também, um quê de suspense, de expectativa. De um caráter curiosamente masoquista perante a forma como a sonoridade introdutória é desenhada. De caráter espacial, a faixa consegue combinar um toque macio e cuidadosamente ondulante com uma base esvoaçante, sequencial e levemente ácida que torna a faixa um produto não necessariamente sinistro, mas com uma brisa de natureza que beira o onírico. Explorando a vulnerabilidade a partir de um toque singelo de acidez, Lunar / Solar consegue misturar detalhes estético-estruturais que flertam claramente com a roupagem new wave e, inclusive, com traços do synth-pop.
De início gradativo marcado por uma maciez adocicada e de natureza etérea, a canção rapidamente se envolve com uma textura amaciada cuidadosamente ondulante que se confunde por entre pontuais pulsos ácidos e uma base sônica esteticamente linear. Capaz de ser não apenas introspectiva, mas, principalmente, hipnótica, a faixa traz um teclado capaz de reproduzir o violino em sua identidade leve, esvoaçante e cheia de serenidade. Mas o que mais marca Nectar é o dulçor que é percebido a partir do instante em que entra em um breve processo de crescendo. Aparentemente proveniente do clarinete, esse sonar amaciado e equilibradamente açucarado não apenas torna a obra vulnerável e frágil, mas, especialmente, faz dela uma composição cheia de pureza e ingenuidade. Tocante, mesmo na presença de um sonar levemente ríspido que oferece a conotação do compasso rítmico, a obra entorpece incontestavelmente o espectador quando permite a entrada do saxofone. Tornando o ambiente amaciado e singelo, o instrumento combina a sua sensualidade característica com sua sutileza de forma a fazer de Nectar uma faixa de extrema bondade e genuína integridade.
Ela é pautada em um início gradativo, de cunho manso. Porém, tão logo atinge o pico de seu volume, a canção permite que o ouvinte perceba que, em meio à introdução, existem brisas ao mesmo tempo dramáticas e melancólicas, ainda que ausentes de pungência. Delicada, introspectiva e sensitiva, em especial graças à performance minimalista do piano, a canção mantém uma base sônica sólida enquanto se permite explorar o sintético em diversas camadas. De natureza transcendental e etérea, a faixa emociona pela sua doçura e pelo seu aspecto de elevação espiritual capaz de tocar o cerne mais profundo do indivíduo. Ganhando conotações do compasso rítmico em meio à presença dos pulsos groovados, Ascending Flow, na forma da composição mais longa do álbum, traz harmonias desenhadas pelo violino de forma a criar uma atmosfera de um perfeito templo sagrado. Um espaço zen e de luz que é marcado pela paz e pelo êxtase de bem-estar.
Delicada, ondulante e amaciada, a canção tem seu início declarado em meio a uma sonoridade de caráter minimalista, uma vez que se pauta em apenas uma camada. Mansa, reconfortante e aromática, Inhaling You, ao contrário de Ascending Flow, é a canção de duração mais curta do disco. Ainda assim, ela é marcada por uma intensa disseminação de bem-estar físico e corporal diante de uma estrutura que soa como um perfeito e inquestionável mantra. Inclusive, nesse processo, a presença da sonoridade orgânica da viola torna a composição ainda mais emocionante e envolta em uma densa camada de serenidade.

É difícil fazer com que um material instrumental fale com o ouvinte na mesma proporção e profundidade que aquele de estrutura lírica. Porém, quando bem trabalhado, esse tipo de produto consegue fazer com que as melodias criem linhas que assumem a função de enredo verbal, denotando, incentivando e espalhando a harmonia pelos seus ambientes. É exatamente isso o que Magdi Aboul-Kheir conseguiu fazer com Slow Heat.
Ainda assim, é preciso destacar algumas particularidades do álbum e artista. Cheio de sensibilidade, o músico fez com que o disco seja capaz de transcender a musicalidade terrena e atingir um patamar espiritual que chega a impressionar. Delicado, intimista, aveludado e gentil, o produto combina sons sintéticos e orgânicos de forma a criar ambientes etéreos e transcendentais que hipnotizam o espectador pela sua natureza envolta em pureza, fragilidade, ternura, bondade e integridade.
Ainda que seja inevitável a percepção de que as suas seis primeiras faixas se destaquem em relação às demais, Slow Heat é um disco instrumental em que todas as suas 10 composições, sem exceção, são capazes de arrancar lágrimas do espectador. Promovendo um estado de bem-estar irresistível a partir de iminentes processos de introspecção que são produzidos a cada som, Slow Heat se mostra como um completo mantra que propõe a equalização energética a partir de uma afetuosidade mostrada na forma de um convite a uma experiência sensorial profunda e encantadora.
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