Depois de vários projetos que conheceram o rápido sabor do sucesso e outros interrompidos pelo fracasso iminente, Butch Against The Machine, ou simplesmente Butch IV, inveredou por um caminho mais interpessoal e passou a lançar músicas sem a menor pretensão de soar agradável aos ouvidos da massa ou da mídia. Com uma jrnada dividida em capítulos, Butch IV chega ao seu novo álbum “Chapter 5: No Hope” (2025). Essa corrida começou lá no ano 2000 com “Chapter 1: Welcome to My Psychosis”, desde então, o músico vem dando sequência ao seu trabalho solo. Suas músicas não procuram ser perfeitas, mas audíveis e o fato de serem registradas em no máximo duas tomadas, refletem na honestidade do compositor.

Dividido em quatorze seções, “Chapter 5: No Hope” começa com “Hazy”, uma execução de pura beleza e que não disfarça a grandeza. A fluidez dos riffs passeia por uma harmonia sóbria, onde a cozinha como o serviço de baixo, é marcante pela condução cadenciada da bateria. Outra curiosidade sobre a gravação desse disco, é que os registros foram feitos com algumas improvisações, recurso que deixou a obra ainda mais orgânica e honesta. A exemplo de faixas como “Burning Tree”, descobrimos influencias do metal em suas mãos.
Embora Butch IV não busque virtuosismo, nem procura ser brilhante nesta obra, facilmente encontramos em músicas como “Scourge of Suburbia” certa pompa na técnica. Não se trata apenas de posicionar microfones no estúdio e descer o braço nas cordas, podemos perceber o profundo sentimento do qual o músico tenta passar na execução. Tudo bem, não há aqueles efeitos mirabolantes muitas vezes inseridos na fase de mixagem, mas há perfeição humana em cada nota. Essa perfeição em músicas como “MCMCXII”, por exemplo, excluem frituras de todo tipo – artifício que muitos usam – para apresentar harmonia pura, simples e eficaz.

De dedilhados melódicos ao clima épico de “S.O.L.”, encontramos nessa demonstração de hard rock visceral e poderoso, grande energia para eventual empolgação. O ritmo cadenciado apresenta uma cozinha triunfante no suporte às bases distorcidas e solos sempre coerentes com a melodia. Aqui, o calor do improviso é pertinente, mas diante de tanta simetria é difícil acreditar que algo assim possa ser reproduzido em algo como uma jam. No entanto, algumas músicas que não exige tanta mágica com os dedos como “Lazy”, trazem um sentimento mais simplificado. Sua sonoridade típica do sludge ou doom metal, escancara as influências de Black Sabbath em Butch IV. Isso, por conseguinte, reforça seu talento versátil.
Com uma obra tão harmoniosa, melódica e agradável aos ouvidos de um leigo ou mesmo músico experiente, chega a ser divergente o fato de ter saído da cabeça de um homem que vive lutando contra seus demônios pessoais. Escute “Harvesting” e também tente entender essa razão. Até nas músicas curtinhas como em “Cradle”, onde os climas derivam de uma textura suave, a musicalidade torna-se penetrante à alma. O soar dos teclados de trás para frente, o solo instigante da guitarra e o dedilhado de uma perfeição maestrina apontam paz, sossego e meditação.

A sequência promove a chegada de “Per Contra”, uma música cuja empolgação vai a degraus muito altos. Aqui a faixa começa com demorado carisma, onde solos loucos e incisivos ditam as regras, entretanto, ao logo dos minutos assume uma postura mais introspectiva, embora bela. A música, praticamente, se divide em duas fases de igual energia, mas de direções distintas como um yn-yang. Depois disso, a linha entre o hard rock e heavy metal são traçadas em “Don’t Know”, que te faz bater cabeça sob a pegada insana da música. Técnicas abrasivas e singulares se encontram aqui e fazem a maior festa.
É incrível o que o sentimento de desilusão causado por dor e tragédia no coração desse homem fez em sua arte. O título do álbum já reflete nesse sentimento e a expressão dele em forma de arte não faz outra coisa, senão alegrar milhares de corações que curtem rock, metal e, sim, virtuosismo. Ouça “Meat Glue”! Sua reclusão dentro de si o fez gerar praticamente um milagre. Até as menos pesadas, como “Meat Glue” que são mais guiadas pela melodia sintetizada, oferecem satisfação e alegria com uma porteira aberta para a aprovação do ouvinte. Eis aqui um homem que, quando deixar o mundo, deixará também uma herança inestimável à arte da música.

Butch IV é talvez uma espécie rara de músico que, embora modesto nas intenções, entrega um trabalho complexo, competente e sem a colaboração de um produtor cujo nariz impinado seja maior do que o ego. “Chapter 5: No Hope” é um trabalho 100% independente e será fonte de inveja de muito mainstream por aí. Basta colocarem os ouvidos em pedradas como “Regression” e “No Hope” e verão o talento escondido na alma de um cara que não quer aparecer. Este capítulo 5 de sua jornada sincera e introspectiva revela muito sobre sua inteligência musical.
Ouça “Chapter 5: No Hope” pelo Spotify:
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