Esse projeto, que um dia foi uma promissora banda, tem causado furor no cenário. Eles trabalham com arqueologia sonora e têm lançado discos muito bacanas, que fogem do comum no que vendo sendo criado com IA hoje em dia. Na verdade, o que eles fazem é algo que conta com auxílio da ferramenta e não é composto por ela. Para entender isso, é melhor conhecer um pouco da história.
Hovercraft era uma banda indie dos anos 90 de Grimsby. Em 1996, o principal compositor, Piers “Charlie Pepper” Wildman, desapareceu sem explicação. A banda acabou. Tudo o que restou foram fitas cassete distorcidas guardadas em caixas de papelão.
Batizado em homenagem ao experimento britânico abandonado com um hovercraft — visionário, porém instável — o projeto reconstrói os únicos vestígios sobreviventes da produção de Charlie entre 1995 e 1996. Tudo comandado por alguns ex-integrantes e conhecidos, não mencionados na apresentação.
É interessante como eles transitam por diversos estilos e mostram uma pegada diferente de um disco pro outro (já que outros trabalhos sofreram o mesmo resgate que esse). Após o neo-soul/jazz de “Shaken Not Stirred” (2025) e as texturas experimentais mais sombrias de “On The Rocks” (2025), este “Blown Away” apresenta a energia original de Charlie: indie-punk, rock alternativo, cru, belo e, por vezes, explosivo.
“Blown Away” é o capítulo final cru e indie-punk de uma trilogia de reconstrução — 13 faixas originalmente escritas em 1996 pelo compositor desaparecido, reconstruídas em 2025 a partir de fitas cassete degradadas, fragmentos de letras e memórias. São quase 50 minutos de um som que nos remete exatamente àquela década, mas que ganha uma roupagem diferenciada, devido à qualidade da produção e atualização do resgate.
O disco abre com a punk “Indie Kid”, que tem uma energia impressionante e riffs poderosos de guitarra. Com velocidade na medida, a música chama atenção por chegar chutando portas com vocais femininos muito bem sacados. “Superman”, a faixa seguinte, não deixa a pegada cair, mantendo inclusive a essência, mas partindo para algo mais robusto e se enveredando pelo rock alternativo.
Com mais um riff chamativo e uma mescla de punk com power pop, “These Days” é uma faixa onde beleza e agressividade se unem. Destaque para os vocais sussurrados e o baixo marcante. Enquanto isso “Oh Yeah” mostra aquela influencia clara das Runaways, mas com vocais dignos do grunge, que consagraram nomes como o L7, por exemplo.
O disco ganha contornos de jazz e soul, mas sem perder o fundo rock, em “Pass The Night Nurse”, um trabalho sucinto, de ritmo veloz, mas que traz teclados providenciais. “Low” é uma balada indie alternativa, com uma levada bem sacada e toques de lo-fi, que colaboram e muito com a produção orgânica que permeia o disco, inclusive trazendo timbres levemente empoeirados.
“Angel” é uma balada também inspirada mais nas cordas e sintetizadores climáticos, além de uma veia romântica mais intensa. Enquanto isso, com um ritmo de indie pop e guitarras cintilantes, “Killer Blues” traz o agito de volta com um ar intimista, dinâmica e vocais sensuais.
“(I love you and) I don’t want you to die” o blues pede passagem, num clima hostil e guitarras que fritam sem dó. Uma música que mostra que pra ser intensa não precisa-se de velocidade. “Now You´re God / Dying Comes So Easy” chega com um ar inspirado pelo neo-soul, dando um frescor interessante, principalmente se pensarmos no clima mais denso de sua antecessora.
Uma das faixas mais emocionantes do disco, “To The Grave” chega com uma mescla onde o rock deslancha com todas as suas facetas. A música prima por trazer uma veia intimista, do qual notamos claras influências de folk, alternativo e classic rock, com um refrão cheio de sentimentos, como se o U2 se tornasse mais rústico. A reta final explode em linhas vocais clamorosas e nos revela uma das músicas mais lindas do disco.
Por isso, a tarefa da seguinte, “New Pine Overcoat”, não seria das mais fáceis. Porém, com sua introdução inicial e o ar sublime dos vocais, a música cumpre com seu papel e consegue manter o equilíbrio no tracklist. Tracklist, aliás, que não tem absolutamente nenhum momento decadente, mesmo começando intenso e se abrandando mais no final.
Quem imaginava que “Blown Away” terminaria com aquele clichê de faixa épica ou dramática, talvez melancólica, se engana. Temos aqui um trabalho que prima por trazer um rock alternativo temperado com indie e pop, onde o baixo entrega linhas modernas, acompanhado a bateria consistentes e sintetizadores enfatizam as bases com as guitarras. Tudo pavimentando um caminho para vocais intensos e uma faixa muito versátil e enérgica.
Não tenha dúvidas que “Blown Away” fecha a trilogia com maestria, sendo talvez o mais consistente e versátil do disco, fazendo com que todo esse trabalho de resgate sonoro seja compensado e ainda favoreça nós, grandes amantes da música! Não deixe de ouvir!
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