Para muitos, a forma como o piano desenha seus movimentos com cautela e cuidado pode não surtir efeito algum. Para outros, a combinação de notas, seus respectivos tons e a maneira com que são extraídos são capazes de fornecer uma boa base do caráter sensorial a ser esperado perante a composição. Em L’identità Perduta, a desenvoltura que Manuela Pasqui dá ao instrumento se consagra mais no segundo quadro. Afinal, a sua performance diante do instrumento sugere uma paisagem densa, tensa e repleta de requintes consistentes de uma melancolia incômoda. Mesmo que seja possível decifrar uma ligeira inclinação para com uma sensualidade tímida, a canção acaba se valendo por uma espécie de dureza proposital. Uma rigidez que expressa o espírito de uma mensagem ainda em formação, mas que já fornece alguns sinais de sua essência. De súbito, um saxofone rasga o embrionário estado de torpor monocromático e introspectivo com sua temática aguda, estridente e de nuances cruas. Nesse sentido, é interessante perceber que o comando de Danielle Di Majo perante o instrumento faz com que a composição seja abraçada por brisas de uma reflexão um tanto incômodas no que tange o próprio emocional do espectador. Afinal, a faixa, com sua estrutura sonora deliciosamente jazz envolta em toques sombrios, expõe, especialmente, a ausência e uma busca desenfreada pelo senso de identidade.
Com certa crueza envolvente, o saxofone é o elemento responsável por puxar a introdução desse novo capítulo que se anuncia. De silhuetas ternas em torno de uma estrutura aveludada e saliente, a faixa é agraciada por momentos de pausa que sugerem a captação do dramático, o que, aqui, é conquistado. Felizmente, percebida sem a dose de pungência que pode tornar a canção em um produto pegajoso, esse detalhe de drama acaba que, curiosamente, abrilhantando cenário sensorial de uma forma envolvente e graciosa. Esbanjando certo quê de brilhantismo em meio aos seus instantes de protagonismo absoluto, o saxofone vai fazendo de Brigata Menotti uma canção que representa a postura do manifesto, do empoderado. Do autoconfiante. Inclusive, é até bom de se perceber que, com a entrada do piano em dado momento da desenvoltura harmônico-melódica unilateral, esses caráteres são consideravelmente enaltecidos em razão da firmeza e da consistência com que notas graves são extraídas das teclas do instrumento.
A palavra que pode exortar bem o sentimento que se tem a partir da presente introdução é curioso. Afinal, por entre as notas de piano pronunciadas simultaneamente em duplas, o ouvinte se perde e se entorpece em meio a sugestões sensoriais oníricas. Verdadeiramente delicada e intimista, a maneira com que o instrumento se desenvolve surte na conquista de um efeito emocional que abraça um perfume gracioso e cálido, mas com ligeiras inclinações para com o melancólico. Ainda assim, até mesmo pela postura do saxofone, elemento que se anuncia pouco antes da metade da duração da obra, a paisagem sônica é abraçada por nuances que beiram o sensual e, portanto, se consagra com um comportamento sedutor de aromas românticos. Delicada em sua máxima essência, Miriam é uma canção que abrilhanta o contexto de R-Esistenze com uma doçura cativante, viciante. Penetrante. Aveludada, a faixa, a partir de cada grito expresso pelo saxofone, expõe todo o seu sentimentalismo nostálgico e, portanto, saudosista. É como a representação da dor de um coração que sobrevive com um amor à distância.
Não é por qualquer razão. A sutileza com que o piano desenha a sua própria performance, a qual é marcada pela presença de notas cuidadosamente graves de natureza suave e amaciada, torna a paisagem introdutória da canção em algo não só atraente, mas charmoso e introspectivamente sensual. Como uma espécie de serenata que se aventura por entre momentos de pura suavidade com outros que beiram um despertar de tensão, Meriggiare traz consigo uma silhueta mais tradicional para com um jazz de nuances esotéricas e aveludadamente sensuais. Com o auxílio do saxofone, inclusive, em cada suspiro, cada grito, cada deleite por ele proferido, ainda que o protagonismo esteja enraizado na figura do piano, a canção se torna marcante pela sua sedução. Sua leveza. Seu perfume.

Nesse novo ecossistema, não demora muito para que piano e saxofone interajam diretamente entre si. De nuances reflexivas embrenhadas em ligeiros sinais de densidade, é como se a canção conseguisse dar algum sentido, algum propósito, às lágrimas que, cuidadosamente, escorrem pelo seio da face do personagem lírico. Serena em sua forma, mas incontestavelmente pensante em meio ao seu caráter intimista, Sul Fil Di Lama faz com que o horizonte tome contornos de uma paisagem de dor, de sofrimento. De busca por redenção e por uma espécie de cicatrização de um coração partido.
Aparentemente, a desenvoltura incial conquistada pelo piano sugere um primeiro vislumbre de experimentalismo. Swingada, mas, ao mesmo tempo, capaz de sugerir um embrionário contexto de caos, Cinque Pezzi Di Luna soa como uma perfeita trilha sonora de um filme de suspense. Porém, é importante destacar que a canção também se mostra marcante pelo seu brilhantismo e exuberância. Há, aqui, certo classicismo jazz exposto pela interação entre a dupla instrumental. Dançante e vibrante, a faixa consegue colocar o ouvinte diretamente em contato com uma energia vibrante e vivaz de um centro urbano noturno no auge dos anos 20.
Delicadeza pode ser uma boa palavra para definir a principal textura ofertada por R-Esistenze. Claro, porém, que ela não é a única a ser levada em consideração. Perante cada uma de suas 10 desenvolturas, o álbum convida o espectador a caminhar por veludos, introspecções, melancolias, nostalgias, tensões e densidades que fogem ao alcance tanto dos olhos quanto dos ouvidos.
Introspectivo em sua máxima essência, o material possui, em meio à combinação de sons explorados pela dupla piano e saxofone, vislumbres de uma paisagem sensorial que beira o romantismo, a revolta, a sensualidade e a imposição. Ainda que notáveis, especialmente perante as seis primeiras obras da sua sequência de faixas, R-Esistenze traz consigo uma identidade inteiriça associada tanto à resistência quanto à memória em uma jornada que ainda tangencia a memória. Aqui, o duo italiano B.I.T. oferece uma reimaginação das vozes dos poetas e pensadores que moldaram a vida cívica e cultural de uma Itália do século XX.
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