O contrabaixo rompe o silêncio com suas notas graves e pontuais. Cuidadosamente espaçadas, mas de forma a não promover a construção de sugestões comportamentais associadas ao torpor, ao drama e à reflexão, a canção passa alguns segundos de sua introdução nesse molde minimalista, se baseando apenas na presença do referido instrumento. Felizmente, em um dado instante, o espectador se vê em meio a um processo de engrandecimento estético-estrutural súbito perante a entrada de um instrumental completo. Agora com direito à interação de elementos como bateria e guitarra, a canção transpira uma paisagem sônica charmosa e amaciada que, ao promover a construção de um frescor envolvente, denuncia a estrutura sônica da obra. Como um produto sônico baseado no escopo do jazz, Ae Fond Kiss (Never Run Dry) ainda se destaca por dar vasão e holofotes suficientes para a guitarra, que, a partir de certo instante, toma a dianteira melódica para si e se aventura na execução de solos bluesados cheios de sensualidade e certo requinte de estridência. Porém, no instante em que a faixa faz com que a audiência pense em se tratar de uma faixa instrumental, ela surpreende por ser agraciada pela presença de uma voz feminina de identidade aguda, mas firme. Se colocando em cena perante uma preformance narrativa e não necessariamente cantada, essa voz dispõe de certo charme em razão de seu sotaque inglês tradicional, encantando até o ouvinte mais distante.

De início tão intrigante quanto aquele da canção anterior, em que o ouvinte tem de lidar com momentos de um audacioso silêncio, a presente faixa, de maneira serena e singela, tem seu nascimento propriamente anunciado perante of riffs unítonos e propositadamente espaçados da guitarra. De caráter agudo, mas ausente de uma distorção áspera, o instrumento permite um mergulho perante a introspecção. É aí que o espectador percebe que a sonoridade da obra, mesmo perante um minimalismo, até então, absoluto, amadurece o viés bluesado exposto anteriormente, mas ainda mantendo a mesma temática simplória. E aqui, é preciso ressaltar que o simples não é sinônimo de pobreza ou de falta de brilhantismo. É apenas uma forma que o instrumento visa expandir os sentidos do ouvinte para outro patamar. Mountain Stream (Take 1), agraciada, ainda, pela inserção de texturas levemente ásperas provenientes daquilo que parece ser o chacoalhar de um chaveiro ou molho de chaves, faz com que o espectador se sinta preparado o suficiente para imergir na suavidade valsante da cadência vocal proposta pela vocalista perto da metade da duração da obra. 

Diferente daquilo que foi vivenciado durante as composições anteriores, o ouvinte se depara, feliz e surpreendentemente, com a presença de outros elementos que tardaram a se apresentar. O compasso seco e redondo do chimbal marcando os vislumbres do tempo rítmico, o trombone e os espirros singelos de uma guitarra de nuances igualmente suspirantes, regem a paisagem introdutória da obra com o devido charme classicista do jazz. Revivendo, portanto, o brilhantismo do gênero estacionado em Ae Fond Kiss (Never Run Dry), a presente composição com sua marca superior a 10 minutos de duração, embriagam o espectador com sua explosão de charme, requinte e exuberância. Tudo de maneira equilibrada, sem brilhantismo excessivo, mas capaz de mostrar, ainda mais do que as canções anteriores, todo o brilho que o Testaments tem a oferecer. Eis Contemplation.

Fechando a conta de Never Run Dry, Mountain Stream (Take 2) se apresenta com uma sutileza, uma delicadeza e uma leveza extremamente contagiantes. Chega até a ser um tanto etérea e transcendental. Mesmo com a presença da voz da cantora se desenvolvendo liricamente desde o início imediato do escopo sonoro, a canção soa como uma valsa esotérica. Um passeio livre pelo mundo bidimensional. De fato, o que chama a atenção aqui é a sintonia rígida existente entre voz e guitarra. Nesse aspecto, é quase como se as duas partes realmente formassem um par. Um casal. Afinal, o uníssono produzido por ambos, que se complementam entre som e cadência, transparece como uma serenata de puro romantismo. Mesmo nos momentos em que tais elementos brincam de forma a produzirem sons onomatopaicos, eles ainda estão unidos pela mesma linha sonora. Esse é o verdadeiro brilho de Mountain Stream (Take 2). Indiscutivelmente.

É um belo trabalho. Não se pode começar um desfecho, as considerações finais de um trabalho como esse de outra forma. Sua beleza, excêntrica, mas embebida em um charme provocantemente classicista, mostra a sua aptidão e a sua expertise em transformar sons em texturas, e texturas em sentimentos. Never Run Dry se configura como o puro jazz com direito a valsas líricas renascentistas. 

Cada uma de suas quatro faixas, ainda que longas em duração, na maioria das vezes, não cansa o espectador. Afinal, como uma estratégia sábia, em dois momentos a surpresa está na súbita inserção da linha lírica. E quando isso acontece, seja no meio ou no começo, é como se um novo horizonte se abrisse perante a definição daquilo que se pode entender como qualidade sônica.

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