Alguns trabalhos chamam atenção não somente pelo contexto musical, mas também pela forma como o músico trabalha e isso reflete um pouco no som. Aqui temos um exemplo de alguém que lança discos esporadicamente, principalmente nos tempos atuais, e parece que seu som mostra o despojo de tal. E, para quem acha que é algo pejorativo, se engana, pois a energia e leveza na sonoridade são muito interessantes.
Giuseppe Cucè é um cantor e compositor siciliano com uma escrita visceral e cinematográfica. Após os álbuns “La mela e il serpente” (2009) e “Attraversando Saturno” (2017), ele retorna com “21 grammi”. Temos aí uma média de 1 lançamento cheio a cada 8 anos e isso gera curiosidade, mas não vem ao caso ao avaliar a música deste artista seminal. Até porque Giuseppe se mantém ativo lançando single e estamos falando aqui de álbuns.
O novo disco chega para mostrar a evolução natural de Cucè, que não se prende a nenhum estilo e sempre está agregando mais à sua sonoridade, moldando sua personalidade constantemente. E isso não faz com que ele se perca nessa amálgama de influências, pelo contrário, ele consegue transformar tudo em uma receita própria e “21 grammi’ é uma grande prova disso.
O título do álbum não é apenas uma metáfora espiritual, mas uma reflexão sobre o valor invisível das experiências humanas. Vinte e um gramas como medida simbólica de tudo aquilo que não pode ser pesado: emoções, memórias, fé, perdas, amores que deixam marcas. Isso define um pouco o norte de seus temas, que transparecem um pouco nas nove composições.
Outro ponto a ser aferido é a produção. Incrível como Giuseppe conseguiu uma sonoridade orgânica muito bem lapidada e que não cai nessas tendências pasteurizadas dos tempos atuais, gerando algo agradável e com timbres muito bem escolhidos.
Destacar as faixas de “21 grammi” exige um senso de apuração que incomoda, pois além das distinções das canções, a cada audição escolhemos uma preferida. Podemos dizer que este é um bom problema, mas não deixa de ser um e fica a recomendação para que o disco seja apreciado em cada segundo.
Porém, é impossível não mencionar “È tutto cosi vero”, que abre o disco como um jazz latino de percussão maravilhosa, o pop cativante “Fragile equilibrio” e suas guitarras bem sacadas, além de “Unna notte infinita, que revela a potência vocal de Giuseppe em uma balada de piano encantadora. Que não demore mais 8 anos pra sair um disco novo!
