Desde 2010, quando lançou o primeiro álbum “Chamber Music”, a musicista clássica Sharon Ruchman embala vários ouvintes com técnica, destreza e paixão em suas músicas. Partindo desse ponto, foram tantos outros lançamentos que ao visitar a sua discografia, é difícil sair sem nenhuma marca no coração. Isso vale também para o seu último lançamento sugestivamente chamado “From the Heart”. Aqui, o habitual dueto entre piano e violino mais uma vez é protagonista. Com onze faixas no repertório, a música título abre as cortinas com um som penetrante, incisivo e profundo. Melancolia define o fino trato que a instrumentação fornece à música.

Aqui, você perceberá que o diálogo entre esses dois instrumentos é muito mais que uma combinação de acordes. Na verdade, a fluidez com que o violino escorrega sobre a cama de teclado remete a um casamento espontâneo. Mesmo em notas que aceleram o andamento, como nos momentos finais de “Enraptured”, a fascinação musical acontece. Ruchman, ao entregar isso a nós, arranca admiração e empolgação da maneira que lhe é cabível. “From the Heart” não é sobre ouvir o coração, não, isso soaria muito superficial. O tema é sobre sentir o que vem do coração em forma de descanso e melodia.

Se você possui certo nível de sensibilidade, perceberá que o violino e piano preenchem qualquer espaço na música, não ocasionando falha de harmonia ou quebra na melodia. Você verá que para ser virtuoso não precisa de alegorias, não precisa de uma orquestra. A propósito, escute “An Embrace” e veja como o minimalismo é capaz de catapultar você a uma viagem transcendental sem precisar de tanta complexidade. Isso é um dos bons fatores da música. De repente você se sente imerso a um sentimento profundo de alegria, medo, anseio ou receio, amor ou ódio e não se dá conta que o fundo musical é ampliador disso tudo.

O melhor de tudo é que, sem vozes, sem cozinha e sem truques de estúdio, Ruchman ainda consegue ser versátil. Até nessa seção do álbum, o que se ouviu foram músicas compostas a partir da introspecção e melancolia imersas em uma textura leve, límpida e intimista. Em “Fireflies”, algumas dessas qualidades ainda perduram, mas é correto dizer que esta música destaca mais a empolgação do violino, como se o instrumento promovesse uma festa em seus pouco mais de dois minutos emeio. É ai que entra a versatilidade, de temas calmos a outro mais tempestuoso, segue o estilo da musicista.

A técnica usada nas músicas, em resumo, é a mesma. Por mais que as melodias sejam distintas e os temas puxem significados próprios, a maneira de tocar o violino com tato sutil transita pela obra. Em algumas partes, o arco até desliza com mais pressão, mas o contraste só valida a técnica. Em “Lullaby in G” é possível navegar pelas nuances do violino, enquanto que o som grave das teclas do piano personificam as águas calmas do mar. Com “From the Heart” é assim, você tem liberdade para fechar os olhos e imaginar o que quiser sob a trilha de suas músicas.

O que falei sobre pressão do arco nas cordas do violino, está em músicas como “Hungarian Dance in F Minor”. Observe como a entrada da música já chega causando impacto com um solo imediato do violino. Por outro lado, o piano mostra-se resiliente ao que pede o clima. Agora, quando falamos de emoção, o conjunto da obra inteiro é um muro a escalar. Em cada tijolo um sentimento, em cada sentimento uma razão para intensificar. “Adoration” é uma das faixas mais emotivas que elevam a introspecção a níveis inalcançáveis. Uma, dentre tantas, séria e honesta.

Quem pega carona nessa vibe é a igualmente introspectiva “Forgiveness”, com suas linhas suaves, sempre belas e essenciais. Perceba, a essa altura que, Sharon Ruchman dividiu o tempo do álbum em sessões cativantes e outras melancólicas. Dessa maneira, ela deu total importância às nuances que o próprio trabalho exigiu. Para fechar o repertório, “From the Heart” traz uma trilogia, cujo primeiro movimento se chama “Sonata for Viola and Piano No. 1 in G Minor – Mvt. 1”, uma faixa com acordes voláteis e extremo bom gosto. É muito legal saber que violino e piano estão trabalhando juntos sem disputarem espaço. Um completa o outro.

Depois de quase quatro minutos de virtuose, começa o segundo movimento da trilogia. “Sonata for Viola and Piano No. 1 in G Minor – Mvt. 2” surge com a mesma elegância e eficiência do primeiro, enquanto que “Sonata for Viola and Piano No. 1 in G Minor – Mvt. 3” possui uma estrutura mais descontraída. Entretanto, os três movimentos possuem uma cativação gloriosa apesar da construção minimalista. Com isso, Sharon Ruchman consegue entregar um trabalho de música clássica da mais fina nobreza. Explorando apenas dois instrumentos, “From the Heart” consegue arrancar do peito das pessoas sentimentos marcantes e intensos.

Ouça “From the Heart” pelo Spotify:

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