Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, mas falar de rock português sempre tem algo especial. Seja o rock nacional português ou o internacional, as bandas de lá, como aqui no Brasil, sempre soam bem características. Mas, assim como o ‘rorronar’ do gato, ninguém sabe exatamente de onde vem essa essência.

O Letters From a Dead Man é o nome de um projeto conceitual idealizado por Hugo Piquer Branco e Ricardo Filipe Bóia, uma dupla que prima pelo rock internacional, afinal de contas apostam em cantar em inglês. Mesmo assim, por mais abrangente e global que soe sua música, nota-se que a essência do rock português se faz presente, principalmente no contexto sombrio que encontramos nas composições deste mais novo disco, que destrincharemos aqui em breve.

Em atividade há 11 anos, a dupla nasceu em 2014 de uma coleção de cartas solitárias, agora transformadas em canções assombrosas. São contos de amor e ódio, paixão e solidão — histórias tecidas em música por alguém que vive os últimos dias de sua existência. Ou seja, o conceito está inserido na existência do projeto, mas que se desenvolve em lançamentos diversos nestes 11 anos de estrada.

Resumindo um pouco a história do Letters From a Dead Man, o ano de 2014 marcou o lançamento de “Chapter I: Somewhere I Was Lost”, EP de estreia, com cinco faixas. “Chapter II: The Fear of Letting You Go”, o segundo capítulo desta história, foi lançado em 2019. Em 2021, o Letters From a Dead Man lançou as músicas “Unsafe Shores” e “When the Lights Go Out”, que mais tarde serviram de base para seu primeiro trabalho acústico, “Acoustic Sessions”, lançado em 2022. Desde então, a dupla não havia lançado nada inédito, que não fossem os singles prévios do novo disco.

E cá estamos para ouvir essa beldade chamada “My Only Fear Remains Unseen”, que pode ser considerado o primeiro disco cheio de músicas inéditas da banda, já que o anterior era uma coletânea de acústicos. E a vantagem fica por conta da maturidade e o senso de composição adquiridos em mais de uma década de experiência.

“My Only Fear Remains Unseen” é um álbum conceitual sobre memória, melancolia e os ecos que permanecem do amor. Apresentado como uma jornada íntima pelos momentos finais da vida de um homem, cada música surge como uma carta — ora uma confissão de amor, ora um sussurro de nostalgia, um vislumbre de esperança ou a inevitabilidade da resignação. No final, o que resta é o eco de uma vida intensamente sentida e a frágil beleza de ter amado, mesmo quando doeu.

Mas, nas 10 faixas que compõem o trabalho, não caímos em dramas comuns e/ou pieguismos baratos. Tudo soa equilibrado, o que faz com que o trabalho soa agradável do início ao fim, mas exigindo uma força maior para se encantar com a forte carga emocional que o trabalho nos remete.

Após a longa introdução, “Two Minutos To Departure”, onde uma sirene de um navio e gaivotas marcam um tom de despedida, entra a belíssima “Lay Down, My Love”, uma composição rica e com uma veia alternativa que traz uma sonoridade levemente agressiva, sem perder seu fundo sombrio. A faixa foi um dos singles prévios e notamos que foi sabiamente bem escolhida.

Logo “When The Lighs Go Out” chega com uma conotação mais synthpop e atmosférica, sem perder sua organicidade, mostrando de cara a versatilidade do duo. O outro single prévio, “Many Days, Many Days”, chega com um tom épico, de batida espaçada e sucinta, tendo um teclado magistral como base.

“Unsafe Shores” ganha contextos synthpop e uma veia eletrônica considerável, mas soa totalmente atemporal. Sua batida e melodias cativam e o refrão, com uma leve quebrada, é muito bem sacado. A primeiro tom mais romântico chega com a linda “A Lover’s Dance”, que é acompanhada apenas por um piano e teclados de fundo, aumentando a dramaticidade.

Como um respiro atmosférico e viajante, “Five Minutes To Arrival” abre caminho para a enérgica e emotiva “Sweet Mary”, um rock de guitarras agressivas, mas melodia bela e introspectiva, que nos remete ao bripop do início dos anos 2000. A música encanta pelo equilíbrio e, sinceramente, é uma de minhas preferidas no disco.

Já “Aimless” se mantém no contexto de pop rock introspectivo, mas visto de outro ângulo. A carga emotiva aqui é deixada de lado e a música ganha uma veia mais ‘séria’. Fechando o disco, temos a moderna (não só em sua roupagem, mas também na abordagem) “Goodnight, My Dear Part II”, que é formada apenas por voz e sintetizadores, criando um ar intimista e futurista, talvez como um sinal de ‘até mais’.

O resultado final de “My Only Fear Remains Unseen”, é que em quase mais de 35 minutos de música, a dupla portuguesa consegue nos levar em uma viagem emotiva, sempre mantendo equilíbrio e nos entretendo mais do que se imagina. Um primor!

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