O amanhecer da canção é feito de maneira minimalista. A introspecção que rege a postura de seu instrumental unilateral, calcado apenas na desenvoltura do piano, sem qualquer dificuldade já é capaz de exortar um sentimentalismo intenso e pungente. Lacrimal, o piano se apresenta por entre uma movimentação ondulante que, apesar de macia, é repleta de brisas melancólicas. Quando o violino entra em cena, não apenas o dramático surge, como também é simultaneamente amplificado. Com esse ecossistema em alta, é até possível de se perceber nuances épicas pairando pelas brisas úmidas que preenchem a paisagem da composição. Interessante, nesse ínterim, perceber como Selling Houses propõe a interação direta entre um sofrimento pungente e uma fragilidade encantadoramente bela. Aveludada, mas se valendo mais por uma menção reflexiva, a canção caminha de tal forma que, conforme vai chegando ao seu fim, a tormenta vai dando lugar a feixes de luz natural que oferecem a ideia da pura esperança e, de certo ponto, de renascimento.

Ao contrário do que aconteceu na composição anterior, em que a dramaticidade foi sendo apresentada de forma paulatina, em Journey To Apex ela não tarda um instante sequer para aparecer. Logo nos momentos iniciais imediatos da obra, portanto, essa sensorialidade é percebida com bastante transparência em virtude da maneira com que o piano se movimenta. Explorando pronúncias duplas a partir de um tom grave, o instrumento consegue criar uma atmosfera tão pungente e pegajosa quanto aquelas existentes nas obras assinadas por Adele. Com o auxílio da camada harmônica efetuada mansamente pelo teclado, a canção é preenchida por uma dose de torpor que, ao menos, tenta diminuir essa grandeza de sofrimento ao propor um breve instante cicatrizante. A partir daí, a faixa acaba sendo adornada por uma boa dose de frescor, mas é quando o violino entra em cena que o sentimentalismo atinge seu ápice. Por meio de uma valsa que, apesar de fofa em seu exterior, esconde bons toques de lamento, Journey To Apex assume uma guinada lacrimal hipnotizante. Com duração superior a sete minutos, é importante mencionar que a obra organizou seu enredo em atos. Atos de conforto, de drama, de lágrimas. Atos que, tal como uma ópera, exploram profundamente o contexto emocional que defendem. Aqui, os sentimentos circulam entre dor, pesar, lamento e, claro, toques de uma nostalgia bastante dolorida.

Novamente é o piano o elemento responsável por puxar o nascimento de uma nova obra que se anuncia. Mantendo sua silhueta delicada e frágil, é curioso perceber como a presente obra é capaz de envolver o ouvinte em uma espécie de abraço terno e reconfortante. Não existe tensão. Não existe densidade. É como uma brisa que abre portas ao transcendental com o auxílio obrigatório dos violinos. Ainda que eles se mostrem elementos que moldem a base melódico-harmônica, são esses mesmos elementos que dão suavidade e frescor à atmosfera. Se tornando extasiante e aromática, Dauntless vai tomando contornos enérgicos conforme a camada rítmica vai ganhando vida por meio de uma série de batuques que crescem, gradativamente, em intensidade e pressão. Tal como a aceleração do coração, o movimento da canção sugere a ideia pulsante e potente de renascimento.

Ainda que a sonoridade responsável pelo seu amanhecer não seja necessariamente orgânica, ela, em meio à sua cadência curiosamente pipocante, consegue despejar em sua paisagem curiosas menções de desespero. De pressa. É como se o cenário fosse repleto de um céu poente, mas longe de se perceber tranquilo. Afinal, existe, em sua máxima essência, a ideia de uma adrenalina incandescente. Uma postura de fuga que intriga o ouvinte desde o iniciar de seu processo de desenvolvimento. Ganhando contornos dramáticos e, até, de certa forma, tocantes, em virtude da forma como o violino passa a preencher a sua camada harmônica, Forever Running Away vai construindo uma narrativa de base semelhante àquela de Dauntless. De duração levemente mais longa em relação à da sua antecessora, a presente faixa consegue passar a ideia de fuga que, paulatinamente, vai desacelerando conforme é agraciada por sensos de proteção, compaixão e, também, de pertencimento. Essa é a sua verdadeira beleza.

Na verdade, ela poupa qualquer tentativa de descrição. Afinal, mesmo que de postura extremamente delicada e lexicalmente frágil, ela traz uma profundidade emocional tão latente que envolve o espectador em meio à ideia do onírico. A obra, a partir daí, não assume somente uma postura introspectiva. Ela se vale por lapsos de compaixão e de uma atitude que visa disseminar ímpetos de bem-estar associados ao conforto, ao aconchego e, acima de tudo, à noção de proteção. De ser cuidado e segurado. O que chama a atenção de Goodnight é, consequentemente, a maneira com que ela se desenvolve. Se mantendo diante de uma paisagem sônica minimalista, vulnerável e extremamente frágil, ela acaba soando como a trilha sonora de uma cantiga de ninar. A partir daí, é como se ela conseguisse fazer o ouvinte reviver os seus momentos de maior vulnerabilidade, o fazendo lembrar o quão é importante o carinho, o cuidado, a atenção e a serenidade para a manutenção do bem-estar e para a consequente aquisição do senso de plenitude.

É difícil um disco conquistar a atenção do ouvinte de maneira imediata. São tantos elementos que, às vezes, o interesse se dissipa entre a percussão, a melodia ou, até mesmo, ao conteúdo lírico apresentado. Quando se trata de um trabalho instrumental, tudo se inverte. O guia não é mais a voz, mas somente os contextos melódico-harmônicos. Eles trazem a emoção de maneira clara. Já no que tange o ritmo, existe pressão e a capacidade de ampliar a densidade, a dramaticidade e o sofrimento por vezes oferecidos. Isso é justamente o que acontece em Forever Running Away & Other Cinematic Stories.

Completamente instrumental, o conteúdo se vale pela disseminação de sensações como ternura, delicadeza, veludo, insegurança, proteção, melancolia, nostalgia e esperança. Parece muita coisa e, ainda, dá a entender que o ouvinte pode se perder diante de tanta miscelânea sensorial. Em verdade, porém, Dexter Britain compôs o material de tal forma que tudo é entregue de maneira gradativa. Assim, todas as emoções são percebidas e devidamente assimiladas, proporcionando não apenas a sensação de visceralidade, mas, principalmente, de ser parte das narrativas ao vivenciar o que é proposto de maneira tão autêntica e sincera.

Ainda que, de fato, seus cinco primeiros títulos mereçam maior destaque por imprimir os apontamentos dados de forma mais nítida, Forever Running Away & Other Cinematic Stories é, por completo, uma viagem sônica de silhuetas cinemáticas. Uma ópera moderna que busca conversar sobre temas como resiliência emocional, movimento e renascimento.

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