Não que ela seja necessariamente onírica, mas a forma como a sonoridade sintética ser anuncia puxando a introdução da canção vem regida por um caráter adocicado que sugere o fantástico, o fantasioso. É como se, de fato, o espectador estivesse despertando dentro de seu próprio sonho e começando a vislumbrar paisagens de uma aparência maravilhosa de maneira a parecer até mesmo irreal. Levemente ondulante, essa melodia unilateral vai ganhando, gradativamente, uma força singela, mas capaz de chamar a atenção do ouvinte pela sua natureza folclórica. Fomentando um estado de torpor no espectador em virtude de sua estrutura minimalista e suavemente ondulante, a obra surpreende o ouvinte desavisado quando, de repente, deixa escapar os versos líricos. De natureza gutural e soando quase como um canto vocálico onipresente, a maneira como a cantora constrói essa cantoria se divide entre falsetes e vozes de peito, fazendo de Intro uma canção com boa referência e, inclusive, influência do canto yodel, de origem que remonta os Alpes suíços e poloneses. Hipnótica, a presente obra é, simplesmente, um convite de boas-vindas ao ouvinte perante ao universo Luftwaffe’s Poesy a ser explorado.
A sonoridade que puxa a introdução na nova composição também chama a atenção do ouvinte, assim como aconteceu na composição anterior. No entanto, aqui ela é embebida por silhuetas mais orgânicas e, de certa forma, acústicas. Angelical e tão delicada quanto o próprio cristal, a melodia desenvolvida aparenta ser proferida por meio da musicalidade lexicalmente frágil da harpa, o que confere ao ambiente muito mais do que classicismo e charme. Acima de tudo, esse detalhe torna o ambiente em algo tão puro que chega a ser intocado. Uma virgindade extremamente aquém da maldade e das impurezas do mundo pagão. Curiosamente, no entanto, a canção apresenta uma sequência de surpreendentes quebras rítmicas que, muito além de sugerir diferentes roupagens sonoras, promovem um estado de torpor completamente irresistível e densamente hipnótico. Em Panzers Help Us (Rock Poesy), das aparentes dissonâncias com direito a versos distorcidos que indicam um experimentalismo quase estridente, a audiência é colocada em contato direto com estilos de canto naturalmente hipnóticos capazes de causar impressões não somente alucinógenas e psicodélicas, mas, principalmente e propositadamente, esquizofrênicas. Tudo se soma e cria uma espécie de sinergia com o enredo lírico, que conta um recorte sobre uma princesa da guerra e a relação com seus servos em prol do que aparenta ser a pureza da civilização, focando sempre na ideia da pele e dos olhos claros como sinônimo de algo que beira a cristandade.
Mantendo seu caráter experimental por meio de versos líricos ecoantes de maneira a ofertar novas camadas que sugerem o psicodélico, a canção traz consigo uma conjuntura harmônica minimalista calcada naquilo que parece ser uma sonoridade aguda, açucarada e estridente proveniente da gaita de fole. A partir daí, o regionalismo e o excêntrico são garantidos, dando à canção uma silhueta de notável autenticidade que se soma a um beat de natureza sintética e delicada. Regada a sobreposições vocais como uma forma de garantir um espectro não necessariamente gutural, mas, sim, fantasmagórico, God’s Dimension (Celtic Poesy) combina um torpor irreverente com nuances religiosas dramáticas e penetrantes. Aqui, o ouvinte tem contato com um enredo lírico de natureza crítica que esboça bem a linha de raciocínio e ideal do Trude And Soldiers. A discussão se centra na dualidade entre a força do amor e da guerra. A união e a separação. O ódio e a plenitude. A intolerância e a tolerância. O conservadorismo e o progressista. A impunidade, a ganância, a sede de poder associada com a religiosidade. Eis aqui, o desejo pelo imortal alcançado pela força.

A psicodelia continua em sua máxima forma graças, especialmente, pela forma com que a vocalista constrói o enredo lírico dessa nova composição. Mantendo, portanto, esse caráter alucinógeno tão penetrante e até mesmo inescrupuloso, a presente faixa surpreende por trazer uma estrutura calcada no espectro do pop convencional, radiofônico, comercial. Com direito a vozes digitalizadas e um beat eletrônico de fácil degustação, a faixa explora uma estrutura amaciada e levemente sensual com direito à presença de sonoridades pertencentes ao piano e, ao que parece, também à flauta escocesa. Perante as notas graves proferidas pelo instrumento de teclas, a canção garante para si uma densidade pegajosa que não consegue, em hipótese alguma, romper com o teor alucinógeno difundido pelo canto desenvolvido pela vocalista. Ainda assim, é possível perceber uma energia leve e divertida, algo que incita o entretenimento e a interação alegre entre pessoas, um detalhe curioso de Firend From The Kz (Pop Poesy). Uma canção que narra uma conversa entre amigos a respeito da natureza do nacionalismo e da disputa da soberania não apenas social, mas cultural e monetária entre Alemanha e Inglaterra. Uma rixa que se estendeu para muito além do bélico. Tudo com grande senso de humor e um caráter provocantemente debochado e, inclusive, sínico.
São poemas. Uma junção de poemas estruturados de maneiras completa e indiscutivelmente não convencionais. Pela sua dinâmica, Luftwaffe’s Poesy mistura uma gama de referências musicais que o torna um produto não somente autêntico, mas audacioso e, até, ganancioso.
Ainda que regido generosamente por sonoridades sintéticas, o álbum é repleto de momentos em que a sua instrumentação soa orgânica, ressaltando o emprego de elementos clássicos e tradicionais em relação a um território específico. Da gaita de fole ao classicismo do piano e o puritanismo da harpa, passando inclusive pela sanfona e a viola, o material ambienta o ouvinte na paisagem alemã.
Com direito ainda a inserção de cantos tradicionais e naturalistas, como é o caso do yodel, o qual serve como base da escola de canto adotada pela própria vocalista e presente em cada uma das suas 11 composições, Luftwaffe’s Poesy vem com uma proposta de unir história e uma musicalidade que mistura o folclórico com o transcendental no que tange o fantástico e o onírico.
Mas o que de fato chama a atenção no presente material é o fato de ele ser construído de forma a tópicos nazistas sob uma visão histórica cheia de magia, poesia e, também, política. O exemplo perfeito de como a música consegue ensinar e entreter de forma lúdica, algo perceptível, principalmente, perante os quatro primeiros títulos do disco.
Como um produto único, porém, Luftwaffe’s Poesy explora, com grande propriedade, os sentimentos ocasionados na época da Segunda Guerra Mundial, trazendo a forma como os nazistas esboçavam suas emoções. Acima de tudo, o disco ressalta, por entre melodias simbólicas, a cultura alemã e as memórias poéticas que ainda persistem em diversas sociedades militares ao redor do mundo.
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