Uma das felicidades dos apreciadores mais de vanguarda da música é o fato de artistas ainda decidirem lançar álbuns. Em um mundo em que o consumo de música se tornou tão superficial, assim como a própria produção sonora, encontrar um disco com composições orgânicas, de arranjos ricos e ainda lançadas em um álbum, mesmo que de forma digital, é um verdadeiro oásis.
Cantora, compositora, vocalista, guitarrista e performer, radicada em The Mary Valley, Queensland, Austrália, The Amanda Emblem Experiment ainda trabalha dessa forma, abrangendo gêneros como blues, rock, folk, americana, soul e roots. Ela chega agora ao seu quarto disco de estúdio, este “The Wood”.
O disco traz 11 composições das quais ela mostra seu conhecimento de causa sem muitas cerimônias. O mote do novo álbum prima pelo folk, onde ela traz instrumentos de retaguarda um pouco mais destacados, tais quais a gaita e a flauta, além de um repertório que tem um clima variado, que vai desde o reflexivo, o melancólico, passando por outros sérios até os mais descontraídos.
A maioria das composições foi escrita na casa de praia da cantora, que é um lugar fora do circuito turístico, bem longe da civilização complexa, em uma pequena cidade litorânea sem lojas e com uma rampa para barcos adorável. Talvez isso explique o clima leve que o disco possui, mesmo nas ocasiões mais introspectivas.
Nos temas, Amanda é tão versátil quanto nas canções. A artista aborda assuntos pertinentes, que vão desde reflexões especiais, a preocupação e a contemplação com a natureza, o meio ambiente e tudo mais, praticamente inspirados em suas vivências. Sempre de uma forma inteligente, ela as aborda de acordo que se casem perfeitamente com as melodias das canções. Um primor de conexão e coesão, do qual ela ainda desfruta de uma ótima produção, que soa atemporal.
Em comum, as músicas trazem o violão, que é praticamente a base de tudo o que concerne a sonoridade do disco, mas é claro que as músicas possuem suas distinções, mesmo tendo a assinatura do grupo em cada uma. Tudo distribuído em quase 45 minutos de ode musical.
“The Wood” começa com a longa introdução instrumental intitulada “The Hanging Flute”, do qual o nome praticamente entrega qual a proposta. A música tem uma guitarra country como base de uma flauta magistral, e soa praticamente como se o Jethro Tull resolvesse trilhar os caminhos do southern rock.
Logo chega “Calm Seas”, uma música que abre o disco de uma forma sublime, com um folk introspectivo, onde a superfície pode nos revelar calmaria, mas no profundo, assim como no oceano, entrega um clima mais tenso e turbulento. A música já revela arranjos ricos, além de elementos percussivos cativantes.
Logo em seguida, “Stormy In My Life” é uma faixa que mostra uma veia mais descontraída, com uma levada mais dinâmica e cheia de alegria, que nos revela a gaita dividindo o protagonismo com a bela voz de Amanda. A música foi o principal e único single prévio do álbum, uma boa escolha por sinal.
Logo temos a faixa título, que chega com uma veia introspectiva, mas não forçada e muito expressiva. A música soa assim da forma mais natural possível. Ela é precedida pelo folk surpreendente “Nananah”, que começa um pouco pra dentro, ganha consistência e apresenta um entrelace de guitarra e violão simplesmente encantador, reforçado pela gaita, que aqui chega de forma discreta.
Para ganhar um pouco mais de eletricidade e agito, o folk rock bluesístico “Ancient Dingo” entrega guitarras potentes e uma das levadas mais dinâmicas do disco, primando por apresentar a voz de Amanda mais solta. Em termos de agito, a faixa seguinte, “Lay Sunday Afternoon” não perde muito, mas aposta em uma abordagem onde o acústico e a percussão tradicional dominam os arranjos, bebendo numa veia country old school, com um baixo acústico magistral e um piano requintado.
O piano e a gaita, com um ritmo que divide o country e o blues, “Thousand of Songs” chega com uma interpretação vocal soberba, descendente diretamente do soul. E, depois de várias faixas agitadas, eis que surge “Stairs”, uma balada sombria e dramática de uma beleza ímpar, que nos faz refletir de forma imediata, soando como um bom respiro emocional.
“Together Feeling (The Captain)” não poderia ser uma faixa melhor para o final do disco, já que é agridoce e traz, desde a abordagem, todos elementos que compõem o trabalho em um clima neutro que chega a dar frio na barriga. Mas, o que fecha realmente o trabalho é a magistral “Hanging Rock”, uma versão vocalizada da introdução do disco, que soa magistral, sem ar de despedidas.
Definitivamente não tenha dúvidas que “The Wood”, da The Amanda Emblem Experiment, prova o quanto o projeto está consolidado e com sua sonoridade soando bem característica, graças a um talento ímpar dos australianos e da artista que os encabeça.
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