O cenário não é apenas sombrio. É de uma aspereza pegajosa penetrante até mesmo escorregadia. Com um toque de cinismo asqueroso, petulante e impositivamente debochado, a canção se desenvolve através de um despertar com um caráter capaz de fazer o ouvinte se sentir em um universo sci-fi e, acima de tudo, distópico. Entre tosses de uma guitarra áspera, a canção evolui para um ambiente enganosamente macio em que o baixo impera através de seu groove marcante e preciso. Entregando a dose de corpo ideal à composição, o instrumento se une à bateria para criar uma estrutura introspectiva e com brisas soturnas que levantam a sua energia enigmática. Regida por um tipo de sensualidade ácida e provocativa, Pray For Your Soul é uma composição em que o conteúdo verbal é construído por uma voz masculina de caráter aparentemente digital, o que fortalece a sensorialidade inerente ao sci-fi. Ainda assim, existe outro detalhe importante que marca a experiência do espectador diante da canção: sua essência industrial. Ela serve como uma roupagem ideal para abrigar um enredo lírico que dialoga sobre manipulação em meio à utópica ideia de um mundo igualitário em que todos, sem exceção, são perfeitos e bem dotados no que se refere à beleza.
A estridência é o elemento que toma conta do cenário como uma espécie de sirene do caos, da desordem e de um cortejo fúnebre. Com boa participação do teclado, elemento que, apesar de seu dulçor sintético, entrega traços de um temor inquietante, a canção passa a ser agraciada por uma harmonia funesta e entorpecente que aprisiona o ouvinte em seu mundo de lamúrias e de clemência. Adornada por boas doses percussivas experimentais, o que confere à sua atmosfera um andamento rítmico diferenciado, mesmo que calcado na curiosa métrica 4×4, a faixa, quanto mais evolui, mais toma ares de solidão, de angústia. De um grito de socorro em meio a uma clausura umbralina. O mais interessante, nesse ínterim, é perceber que a forma como o vocalista interpreta o enredo lírico despeja, sobre a canção, um tom propositadamente esquizofrênico e, portanto, ausente do mundo da lucidez. Não é de se espantar que, em Will Somebody Help Me, exista uma dualidade entre o desejo sincero por ajuda e um ímpeto súbito manipulativo entorno desse mesmo pedido de ajuda. A negação. A solidão e o senso de anonimato associado ao ato de ser ignorado enaltece a ideia do peso da consciência e do peso que as escolhas exercem sobre o indivíduo que as realizou. É como um recado de que diz que tudo cobra seu preço.
O digital molda ao menos a paisagem introdutória. Surpreendentemente, porém, o que acontece é que a faixa acaba levando o ouvinte a uma segunda etapa introdutória em que aquilo que é tido como melodia preenche o cenário. Mesmo adornada por uma roupagem rascante, esse detalhe sonoro envolto em melodia é perceptível e domina a experiência auditivo-sensorial do espectador. Introduzindo um hard rock misturado com boas doses de um rock alternativo de essência noventista, a faixa não esconde seu teor melancólico, expandindo, assim, sua própria cadeia emocional. Pulsante e groovada, a faixa chama a atenção por, no que se refere às frases do baixo, ser agraciada por inserções funkeadas que lhe conferem uma noção de movimento diferenciada em virtude de seu caráter sincopado e saliente. Sem se preocupar em esconder o torpor que ronda a sua atmosfera como um personagem onipresente, War On Truth dialoga, especificamente, não apenas sobre manipulação política. Dialoga sobre conflito de interesses, sobre a persuasão governamental em prol de ideias e pensamentos conservadores que aderem ao ideal de bancadas governamentais em ascensão. Tudo, no entanto, está associado à distorção da realidade na ânsia de angariar adeptos de iniciativas antiquadas e sem escrúpulos.
Ela surpreende com seu início melódico e sintético. Mais especificamente, ela chama a atenção por ser vivida através de uma roupagem estrutural baseada em boas influências da new wave. Ambientando o espectador, portanto, em uma década setentista regida por ácido e por vivências noturnas urbanas vibrantes, a faixa se mostra como a primeira do álbum a receber um desenho estrutural nos moldes ideais para sua difusão radiofônica. Contagiante, açucarada e, inclusive, amaciada, a música mistura dulçor e azedume de maneira bastante equilibrada. Divertida e atraente em sua máxima essência, More Than You Need se mostra uma composição que não pede uma interpretação lírica exaustiva. Afinal, seu tema é escancarado, verbalizado. Flagrado. A ganância tanto na sociedade comum quanto na política é trazida, aqui, como uma espécie de sede de poder e enaltecimento da autoimagem. Porém, aqui também existe a associação desse quesito para com não somente a negação, mas o esnobismo em relação a todos aqueles e tudo aquilo que não se equipara ao padrão almejado.

Não é apenas interessante. É chocante. É ousado. É audacioso. Noise Against Tyranny poderia muito bem ser colocado como um produto mais do mesmo em virtude de suas abordagens líricas. Tudo muda, porém, com a ampla gama musical usada como a cama que chama pelas mesmas emoções expressas a cada palavra proferida. Do rock alternativo, passando pelo hard rock, abordando o rock industrial e experimentando, inclusive, a new wave, o álbum é como um material que traz o melhor dos mundos.
De maneira consciente e sensível, o duo Calling All Astronauts se usa dessa receita sonora vasta para fazer com que suas mensagens sejam captadas por um número maior de pessoas. Com uma postura que vai da imponência ao proposital deboche, cada conteúdo lírico distribuído entre as 10 faixas da lista de canções apresenta diferentes aspectos da crítica ao escopo sociopolítico.
A ignorância política em relação às mudanças climáticas. A própria manipulação política. A ganância e o conservadorismo são apenas uma das amostras desse cardápio ácido, mas necessário de ser discutido, que o duo inglês apresenta. Ainda que com bom destaque às suas quatro primeiras canções, é inegável a força rebelde e reflexiva que o álbum possui. Por meio dela, ele soa como uma luz de consciência. Um chamado à ação. Independente do seu poder, Noise Against Tyranny é simplesmente um grito de súplica para que a sociedade não retroceda ao absurdo em virtude das ações políticas.
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