Em tempos que se usa a mitologia para fugir dos problemas e caos atuais no entretenimento, a ideia do Nordstahl em fazer o contrário disso é simplesmente magistral. Isso já fica claro no título de seu novo disco, “Ragnarök In Berlin”, além da própria capa do trabalho, que é belíssima, por sinal.

Conceitual, o disco se inspira no simbolismo da mitologia nórdica para dissecar a decadência moral da sociedade moderna e nasce da frustração com a apatia generalizada e a desonestidade intelectual. Eles cantam o apocalipse, onde cada faixa transforma figuras mitológicas em metáforas para as falhas contemporâneas: o martelo silencioso de Thor representa a coragem não utilizada, Loki personifica o relativismo moral e Midgard dorme enquanto o mundo queima ao seu redor.

A ideia é genial, mas nem tudo seria válido se a banda se perdesse no contexto musical e, graças aos deuses, seja eles vikings ou não, o Nordstahl está imune a isso. Afinal de contas, nas setes faixas do disco eles se saem muito bem, entregando um metal industrial que não fecha o seu leque.

E tudo chega com uma produção muito agradável que, apesar da modernidade exigida do som, soa honesta e visceral, guardadas as devidas proporções. Os tons e timbres colaboram para o teor do disco, onde as faixas também transitam por gêneros como metalcore e até mesmo o rock alternativo.

Porém, não tem como “Ragnarök In Berlin” é um trabalho de metal industrial e isso já fica bem claro na faixa de abertura. “Midgard Schlaf” tem os vocais como introdução, já deixando claro que a banda opta por cantar em alemão. A música chega como uma abertura épica, com direito ao fundo erudito. De levada cadenciada, soa sombria e esconde um pouco o jogo do que realmente representa a sonoridade da banda como um todo, até explodir num ritmo dançante e inserir de vez o ouvinte.

Logo em seguida chegamos à faixa-título, que tem uma batida eletrônica tradicional dentro do metal industrial, onde martela dando passagem para guitarras que parecem serras-elétricas. A música também prime pelo refrão praticamente em ‘gang vocals’ e o verso agressivo, apresentando uma faceta mais intensa do vocalista. Passagens atmosféricas futurísticas a complementam.

“Bifröst Brennt” apresenta um teclado de melodias mais intensas. Porém, assim que a bateria quebra, dita um ritmo mais martelado, caindo em melodias mais sombrias no refrão. E, com uma passagem mais branda onde o ritmo muda pra algo mais dramático se mostra que esse é um dos grandes trunfos da banda.

Chegando praticamente à primeira metade do disco, “Mjölnir” traz um dos riffs mais pesados e cativantes de guitarras, assim como a levada industrial da bateria, culminando mais uma vez em um refrão cativante. Sem dúvidas, essa faixa está pronta para aquecer o coração dos metaleiros mais conservadores.

Eis que surge “Jörmungands Kreis”, que entrega uma introdução de fundo erudito e é uma faixa com um dos ritmos e abordagens mais diferenciados e progressivos do disco. Depois de uma introdução um tanto quanto mais burocrática, a música explode em um refrão dramático e emotivo, podendo ser até mesmo a faixa mais comercial do disco.

Entrando na reta final, “Lokis Lüngen” tem uma das melodias mais intensas do trabalho e revela ainda mais versatilidade do vocal, que aqui canta de forma mais limpa e melódica em algumas partes. Fato é que estamos diante de mais uma faixa emocionante, que pode agradar tanto fãs do metal sinfônico, assim como do gothic. Se sua antecessora tinha partes acessíveis, aqui temos uma faixa assim por completo.

Por fim, temos a empolgante “Friggs Falscher Trost”, que traz um vocal feminino como protagonista. Apesar da música ainda possuir o instrumental focado no industrial metal, com guitarras pesadas e batidas consistentes, o verso nos remete ao folk e o refrão cai em linhas mais doom. Sem dúvidas a música fecha o disco de forma primorosa.

No final das contas, constatamos várias coisas em “Ragnarök em Berlim”, que vão além do seu conceito e podem surpreender de alguma forma. Primeiramente é a abordagem do Nordstahl. Quando imaginamos uma banda mais sisuda e caótica, notamos que eles possuem uma veia mais acessível que deixa o disco dinâmico e longe de soar maçante. Aliás, objetividade é um dos trunfos dos caras.

O outro fator fica por conta de apostarem em uma sonoridade moderna, mas não artificial. Com guitarras viscerais e uma cozinha consistente, deixam a parte mais moderna para os teclados que muitas vezes ditam também as melodias. O trabalho vocal segue esse equilíbrio, sendo uma das principais assinaturas da banda.

Por fim, além do conceito em si, a temática se recusa a oferecer conforto fácil ou falsas esperanças. Em vez disso, ela reflete comportamentos que muitos preferem ignorar: o recuo para zonas de conforto, as discussões circulares intermináveis que nunca levam à ação e a cegueira deliberada para problemas óbvios. Um trabalho muito acima da média!

https://open.spotify.com/artist/3HtSZz5loFEIACXLJ2ykAX?si=lZKzYFqdR0Wdsi2UC6_Irg

https://www.youtube.com/channel/UC7IfD6OybMRnDbIB4sjxrew

https://www.instagram.com/nordstahl79?igsh=aDFsNnlhb3JkZ21i

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